Cartas de suicídio do mundo
07:39:00
- Despeço-me hoje por não conseguir que as vozes
se calem na minha cabeça. Estou cansada de sentir que o chão é o único lugar
onde mereço estar, de tão frio e penoso que é. Creio que debaixo do chão
estarei ainda melhor. Não tenho medo do Inferno, a vida já mo mostrou. Adeus.
- Despeço-me
hoje por não ter para onde ir. O além parece-me um desconhecido aceitável.
Estou cansado dos dias passados a dormir em becos, das pessoas que passam,
fingindo que não ouvem o grito desesperado de ajuda, que nós – sem abrigo -
somos uma peste contagiosa. Sou pobre. Um cêntimo a menos não te torna pobre,
assim como não me torna rico. Se é para implorar, imploro a Deus. Ao menos que
o Homem possa manter a sua dignidade e fé. Ámen.
- Despeço-me
hoje por estar cansada de rótulos. Estou cansada de ter de ser magra para pertencer
ao mundo da moda, mas ser demasiado magra para o mundo exterior. Estou cansada
de maquilhagem e roupa, que nada mais me dão do que a ilusão de ser bela. Estou
cansada de não poder comer sem me repreenderem, de cada grama ser importante,
da sanita ser a que me agarro agora. Tentem emagrecer um cadáver, desafio-vos.
- Despeço-me
hoje, afogado em álcool e de pulmões negros. A vida é uma puta! Já o disse.
Dêem-me mais uma imperial, que a porra do meu fígado nunca mais falha. Já fumei
mais de dois maços e ainda não tossi. O empregado não me deixa beber mais,
filho da p***, ai coitada da mãe que não tem culpa de nada! Disparate! Somos
todos uma merda... Vem aí a fase deprimente, matem-me, que a porra dos
comprimidos nunca mais fazem efeito. Pum.
- Despeço-me
hoje, nua e vestida de preconceitos. Hoje já não irei para o beco, nem para a
borda da estrada. Hoje deixo-me ficar na cama que, ironicamente, é mais limpa
do que todos os outros cantos em que me deito. Desta vez não há homens ou
mulheres. Estou eu, nua, com o corpo manchado do pecado de querer ganhar a
vida. Eu fodi muito, mas a vida fodeu-me à grande.
- Despeço-me hoje, por não me conseguir amar. As
miúdas da minha escola são más, mas bonitas – e eu boazinha e feia. Gozam com
as minhas roupas, com o meu cabelo e até pela maneira como eu falo. A minha
pele já está marcada, mas não mais do que a minha alma. Nenhuma dor física
alivia o suficiente – só quando deixar de sentir.
- Despeço-me
hoje para ir ter com a minha filha. Estou no quarto dela, tal e qual como ela o
deixou – a cama desarrumada, a cadeira deserta e a pequena raposa de peluche a
quem ela deu o seu nome, no chão. Willow, tenho saudades tuas. Deitei-me na tua
cama e tem o teu cheiro. Choro com as fotografias na mão. Em todas elas, não me
largavas. Eu também não te largo, filha. A mama já vai ter contigo.
- Despeço-me
hoje para te encontrar. A mãe disse que
agora estavas no céu e que eras uma estrela. Ela não me deixa subir ao terraço,
mas eu tenho muitas saudades tuas e pensei que assim te pudesse encontrar. Há
muitas estrelas, qual és tu pai? Posso subir ao céu contigo? O mundo deve ser
bonito visto daí. A mãe diz que tu caíste e foi assim que te tornaste numa
estrela. Até já pai, já vou brilhar ao teu lado.
- Despeço-me
hoje, porque te perdi. Hoje tive de ir escolher o caixão onde te irias deitar,
adormecida na beleza que nunca mais verei. Escolhi um branco, porque o preto
nunca fez sentido para ti. A pureza marcava-te. Não gosto de estar acordado,
sabendo que dormes. Passei metade da
minha vida ao teu lado, vamos passar a eternidade juntos?
1 comentários
muito muito bom! adorei! :P
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