28 de Julho

10:51:00

Vi a beleza na tua sombra. Mais tarde, vi a perfeição no sorriso da tua voz: “trocas-me esta nota de 20?”. Tenho a certeza que, nesse momento, o que tu viste foi uma rapariga simples e atrapalhada, que estava demasiado presa no seu mundo para se deixar capturar por ti. Lá sabia eu que num momento complexo e atento, já tinhas duas notas na mão e eu já era tua.
Percorreste-me todos os dias, sem nunca me teres realmente tocado. O meu corpo indignava-se por tal facto, só pedia o teu calor nos meus braços. Lá ias tu, mais uma vez embora, e as palavras escaparam para te tornar prisioneiro do meu corpo “dás-me um abraço?” e lá aceitaste as algemas e a prisão que te entregava o mundo.
E eu peguei na caneta e escrevi que não te amava. Só se dá ao trabalho de afirmar que não ama, quem ama. E eu, tola iludida, pensando que, por ser dia, as estrelas não brilhavam.
Farta da tua ausência, chegaste de carro aos meus pés e eu olhei-te cega e tu com óculos e eu ri-me, sabendo que, mesmo cega, via mais que tu – ou então sentia mais que tu, porque os cegos têm essa graça.
Convidaste-me para aquele café que eu não cheguei a tomar e acompanhaste-me pela noite escura, implorando que não te fizesse o meu olhar de gato das botas – não sabia que te olhava como quem pedia misericórdia, até dar conta que já tinha pecado nos teus lábios.
Pegaste-me na mão e caminhaste comigo à beira-mar, não entendendo que era só à tua beira que eu queria estar. Os teus dedos embrulhavam-se nos meus e eu só pedia para me afogar no teu toque.
Levaste-me para longe, e eu tão perto de toda a gente, não sentia ninguém. Contemplei os teus olhos durante horas, na esperança que se fechassem por um segundo – fecharam. E a vida valeu por esse segundo.
E eu assisti ao pesar do que é sentir. As profundezas em que mergulhávamos, todas as células que queimámos, o abismo em que dançávamos...
Todos os caminhos iam dar a ti – só por isso, já eu gostava de caminhar.

O mundo era nosso. Os dias nasciam para me ver a pousar em ti e as noites surgiam para te ver a despertar para mim. Os lugares eram criados para eu te amar e tu me amares – o quente da areia que ardia em nós, o frio do mar que inundava os nossos corpos, a terra que nunca pisámos, porque era demasiado mundana para nós.
Éramos divinos, esfriei nas labaredas do teu beijo e esquentei na fenda do teu olhar. Ardi como quem namora com o diabo – poderias sê-lo, se a tua pele não soasse a paraíso. Voei tão alto que a queda só poderia ser sufocante – e assim acabou, sem respiração.
Delirei nos martírios do teu toque, enlouqueci ainda mais na sua ausência. Os momentos valem pelas respirações falhadas. Só o que mata soa a vida.

You Might Also Like

0 comentários

Márcia Filipa. Com tecnologia do Blogger.