Agarro-me aos lençóis

09:07:00

Agarro-me aos lençóis, como se estes fossem perfume de tua pele. Teu corpo permanentemente nulo na minha cama desperta na boca da noite. Agarro-me aos lençóis, como se pudesse tocar-te. Não posso. Não te tenho entre meus braços, nem existo na ponta dos teus dedos. A noite beija-me a tua saudade. Roça-me os seus lábios e morde-me a alma. Lamento a entrega que não me ofereces.
Vejo nas penumbras as formas que decompus em minhas mãos. Cultivas o pesar da tua ausência nesta cama de lençóis puros, contraste da malícia do corpo que neles se deleita.

Agarro-me aos lençóis, como documentassem cada pecado que me deste de beber (como podem chamar ardente ao Inferno, se nunca saborearam tua pele?). Agarro-me aos lençóis, com o despero de quem falece nas horas vagas das sombras que não deixaste. Eu existo para te possuir na brandura de quatro paredes. Não há barreira que me proíba de atravessar o horizonte do abismo que a tua boca me proporciona. Como ousas não jazer nestes lençóis, onde a vida ganha definição?



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Márcia Filipa. Com tecnologia do Blogger.