Agarro-me aos lençóis
09:07:00
Agarro-me aos lençóis, como se estes fossem perfume de
tua pele. Teu corpo permanentemente nulo na minha cama desperta na boca da
noite. Agarro-me aos lençóis, como se pudesse tocar-te. Não posso. Não te tenho
entre meus braços, nem existo na ponta dos teus dedos. A noite beija-me a tua
saudade. Roça-me os seus lábios e morde-me a alma. Lamento a entrega que não me
ofereces.
Vejo nas penumbras as formas que decompus em minhas mãos.
Cultivas o pesar da tua ausência nesta cama de lençóis puros, contraste da
malícia do corpo que neles se deleita.
Agarro-me aos lençóis, como documentassem cada pecado que
me deste de beber (como podem chamar ardente ao Inferno, se nunca saborearam
tua pele?). Agarro-me aos lençóis, com o despero de quem falece nas horas vagas
das sombras que não deixaste. Eu existo para te possuir na brandura de quatro
paredes. Não há barreira que me proíba de atravessar o horizonte do abismo que a
tua boca me proporciona. Como ousas não jazer nestes lençóis, onde a vida ganha
definição?

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