Jack Daniels
15:20:00
Hoje vou
fugir da vida. Vou a um daqueles bares em que não me gostas de ver e vou
sentir. A minha garganta vai arder e o eu sangue vai acelerar. O coração vai
bater rápido e eu vou correr até ao êxtase da sensação. Por este andar, pensas
que te vou traír. Que a minha garganta vai ficar seca das mãos em redor do meu
pescoço, que o meu sangue vai dilatar com o toque molhado, que o coração vai
bater tão velozmente quanto ele me bate e que o clímax da sensação é o orgasmo.
Mas não. Sou só eu e o meu Jack Daniels. Ai, como ele é formoso, querido.
Cobre-me a vista, estarei cega de amor? Peço mais um copo. Quero mais, sempre
mais. Ele concede-me todos os delírios que tu me ofereces: deprime-me,
alegra-me e faz-me tonta. Pedi ao empregado mais uma rodada. É bonito e tenho
quase a certeza que me quer saltar para cima, mas hoje só beijo o meu Daniels.
Levo-o à boca, e ele percorre-me por inteiro. Estava à espera de ter um homem
(com o H grande que tu não tens) ao meu lado, a apresentar-se do género “Sou o
Jack, posso pagar-te uma bebida?” e eu apresentar-me-ia e fugiria da vida por
uma noite. Em vez disso, os bancos estão vazios, mas o Jack fez-me olhinhos, no
seu assento de vidro, assim que entrei. E eu pedi que ele se desse a mim. Entregou-se
e já perdi a conta das vezes que ele se envolveu com a minha língua. Estou tão
acesa, que me sinto a apagar. A consciência dilui-se no licor que agito nas
minhas mãos. Rio-me, enterro as lágrimas nos braços, oh amor, porque me fazes
isto? Abano a cabeça, adeus pensamentos. Vejo a lubricidade do álcool a
tocar-me. O bar fica mais sombrio e a inconsciência estimula-me. Sempre gostei
de amor no escuro. Parece-me que afinal sempre é dia de fugir da vida por uma
noite. Sou só eu e o meu Jack Daniels.

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