Nudez da Alma
16:19:00
Nunca consegui perceber o que é que as pessoas
vêem em mim. É tão angustiante. O que é que há de bom para ver em alguém
destruído? Eu odeio-me. Eu odeio-me tanto, tanto, tanto. E não percebo porque é
que não o fazem todos.
Fazem-me questão de dizer e repetir “és linda”.
Dizem que gostam do meu perfume. Que tenho um corpo perfeito... Umas pernas
longas e bonitas, que tenho uma barriga lisa... Dizem que adoram o meu cabelo,
alguns preferem-no esticado, outros ondulado, outros despenteado... Dizem que
adoram os meus lábios, que são sexys, que são sedutores, que dão vontade de
serem beijados. Dizem que tenho uns olhos bonitos, apenas pelo brilho que
possuem.
O que é que isso tudo me interessa? Eu não
quero saber do que as pessoas dizem. Eu tenho consciência do que sou e tenho
consciência que por muito que digam algo, eu não vou acreditar nisso. E ás
vezes gostava. Ás vezes gostava de me sentir bela. Ás vezes gostava que fosse
verdade... Mas não é. Odeio tudo em mim.
O meu perfume? É simplesmente perfume. O meu
corpo perfeito? É tal como o teu: ossos, carne e pele. Não há lá nada de novo.
Tem tantos defeitos como outros. E podia fazer uma lista a dizer tudo o que
odeio nele. Talvez ocupasse uma página inteira. Desde o cabelo estúpido e
teimoso, aos olhos vulgares, ao nariz irritante e à cara horrivel. Desde a magreza
irritante que faz parecer que tenho umas costelas mais sobressaidas do que os
meus seios. Desde os meus inúmeros sinais às enormes manchas de nascença que
quase parecem continentes nas minhas pernas. Odeio. Mas mais do que isso, odeio
saber que sou um ser frágil. Que tudo isto é frágil. Ossos, carne e pele... Que
fraqueza.
E a vontade que eu tenho de arrancar tudo de
mim? Todo este sofrimento, toda esta forma de ser? Essa vontade que me chega a
fazer esfolar a minha pele, como se abrir feridas, permitisse a saída de
qualquer dor que me atormenta. Mas não permite. É só um escape momentâneo da
realidade. E que bom é um escape da realidade... Por muito pequeno que seja,
por muito doloroso que seja...
Antes era uma pessoa tímida. Hoje sou o
oposto. Pelo menos pensava que era, isso antes de me ver a esconder das pessoas
por detrás da máscara de menina simpática, divertida, perversa e querida para
todos. Que nojo!
Vejo qualidades e defeitos em tudo o que sou.
E isso irrita-me, porque ou é bom ou é mau. Ás vezes as coisas têem de ser a
branco e preto. Ás vezes as coisas deviam ser a preto e branco.
Sempre considerei as emoções, a sensibilidade
algo bom. Permite ver para além do que há, sabem? Cada detalhe de cada ser ou
não ser. A sensibilidade é o que te permite ver e tocar nos outros. É o que te
permite ser alguém, ser humano. Mas e quando o sentimento se torna algo
demasiado... Abrasador? Forte? Aí vemos a condição fraca a que estamos
condenados a viver. Todos os dias da nossa mísera vida. Somos tão fracos...
Somos tão fortes. Sofremos tanto, mas só os fortes podem aguentar o sofrimento.
E nós aguentamos. Até mesmo quando somos fracos e desistimos.
E não sei o que fazer com o raio da minha
vida.
Sempre me dediquei aos outros. Desde pequena,
esse foi o meu objetivo. Tornei esse objetivo a missão da minha vida. Saber
que fazia bem a alguém... Punha-me bem, fazia-me feliz. Mas há medida que
crescemos, percebemos que o tiro sai-nos pela colátra. Que as pessoas não são
tão boas como pensávamos que eram... Que o mundo é cruel. Que, por muitas
vezes, as melhores pessoas são as que sofrem mais. Que tudo é injusto... Mas, a
verdade, é que também nunca pensei muito nisso. Vivia apenas segundo o
princípio: primeiro os outros, depois eu.
E depois chega aquele momento... Aquele
momento em que chega alguém e te vira o mundo do avesso. E tu entregas tudo a
essa pessoa, porque sempre foi essa a tua forma de ser: dar tudo... o que se
tem e o que não se tem. Mas ninguém pode dar o que não tem. Então acabas por te
tornar algo que não eras. Apenas para
agradar. Apenas para sentires que alguém gosta de ti tanto como tu gostas dessa
pessoa.
E um dia essa pessoa vai embora. Essa pessoa
vai embora e tu aprendeste a ser outra... Já sabes o papel tão bem... Cada
fala, cada gesto, cada maneira de pronunciar cada palavra... O papel assenta-te
tão bem, que acabas por te tornar nele. E tentas voltar para as outras pessoas,
mas as prioridades mudaram: primeiro está o que se foi embora, em segundo estás
tu mesma e, em último, os outros.
Então lutas pelo que não tem retorno. Uma e
outra vez. E cada tentativa afasta-te cada vez mais do que eras. Pedaço a
pedaço lá vai a tua essência. Por uma pessoa. Sim, uma pessoa. E revoltas-te
com os outros por eles te quererem abrir os olhos. Mas a tua ilusão é tão
bela... A cegueira é bela.
Um dia, quando perdes tudo de ti, acabas por
voltar à realidade. Então, dedicas-te a ti mesma. E, para isso, precisas de
tempo. Precisas de solidão... Mas as pessoas preocupam-se demais e não ta dão. “Estás
bem?”, “Fala comigo”, “Estou aqui para ti”. Tudo isto e tu só queres solidão.
Queres gritar e dizer “Calem-se!”. Mas isso parece mal... E solidão não é o que
tu realmente queres. Porque sabes que se estiveres só, tudo o que resta de ti te
vai devorar.
Então, andas ali perdida aquele tempo todo. E,
um dia, voltas-te para a terceira prioridade. Mas adivinha? As pessoas
abandonaram-te. Foram-se embora. E a culpa é tua, só tua, porque foste tu que as
abandonaste primeiro e porque foste tu que as puseste como última opção. E ninguém deve
ser última opção.
E ao perceberes a realidade que começaste a
viver, começas a pensar “Como é que eu cheguei a isto? Como é que eu me tornei
nisto?”. E porque pensas isso? Tens o que querias: solidão. Mas a solidão é
demasiado solitária, não é? Então voltas a querer ser o que eras: a pessoa
demasiado estúpida para acreditar nos outros e sofrer por eles.
Pouco a pouco vais conseguindo. Voltas a
confiar, a abrir-te, a depender dos outros. Queres ser a esponja que acata o
sofrimento deles. E depois volta o medo... Entregar-me a alguém é demasiado. É
demasiado para aguentar. O papel ainda está demasiado presente. E tu estás a
tentar desprender-te dessa personagem. Não a entregares-te a outro papel. Não.
Isso não. Não te podes dar ao luxo de te arruinares novamente. As coisas nunca
voltam como novas, nunca voltam como inteiras, mas quantos mais pedaços puder
juntar, melhor.
E
depois surge a eterna dúvida: os outros ou eu?
Porque eu sou metade eu e metade de uma
personagem.
E prefiro seguir o caminho da personagem, mas
não sabendo que estou a magoar alguém. Então surge a outra eterna dúvida: sofro
eu ou o outro?
E nessa eu respondo “eu”. Porque ou sofro eu,
ou sofre a outra pessoa e eu sofro por isso. Talvez seja tudo uma questão de
egoísmo. Talvez eu seja egoísta. Talvez, por mais tóxicas que sejam as coisas,
eu as queira, porque pelos 99% que me fazem mal, existe um 1% que me faz sentir
bem e viva. E eu só quero sentir-me bem e viva. Já chega de morte. Já estou tão
farta desta morte.
Mas depois penso, não estarei a matar a outra
pessoa? E as dúvidas voltam. E eu odeio dúvidas. Odeio pensar e odeio não
pensar. Odeio sentir e odeio não sentir. E a vida está tão cheia de antíteses e
antónimos que me deixa louca.
E não sei porque duvido, porque penso, porque
sinto ou porque escrevo... Porque nada do que escrevo serve e porque nada do
que eu escrevo, vem de algo bom. E talvez, nada de bom venha de uma coisa má.
Talvez eu esteja errada. Talvez a arte não venha do sofrimento. Talvez seja
como dizem: não há nada mais fácil do que escrever sobre a dor. Ri-me quando
ouvi isto pela primeira vez, mas talvez não estejam errados. Talvez eu não
precise de fazer isto. Recordar e esquecer até ao ponto de só querer relembrar.
Sempre me achei uma pessoa torturante. Afinal,
alguém gosta de viver na dor? Muitos vivem com ela diariamente, mas gostar?
Ninguém gosta. Eu creio que insisto em viver nela, porque acredito que a
mereço. É algo estúpido... Querer castigo, sem saber porque hei-de ser
castigada. Não sei. Talvez pelo que sou, pelo que penso, pelo que faço. Não
interessa. Vai dar tudo ao mesmo. Há algo em mim que diz que o mereço e há algo
em mim que faz para o merecer. Afinal, tudo o que sempre me mostraram foi: "tu não és suficiente". Seja o que for: Há algo de belo em alguém destruído?
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