Noite

08:18:00

Mais uma noite. Vou vestir-me bem, como se quisesse ser o dia da noite, enquanto me quero camuflar na escuridão. Mais umas notas no bolso. Vou gastá-las no álcool em que me fizeste querer afogar. Peço, bebo, bato com a mão no balcão e repito. Não sei porque é que estas ações não se realizaram naquela noite. Em vez disso, apoiei-me nos meus saltos e saí do bar. Foi aí que te vi: camisola branca e imperial na mão esquerda. Não te conhecia, não sabia o teu nome, mas sabia que devia saber. Da minha boca saíu um “Estás bem?”, da tua veio um sincero “Não”.
Não démos as mãos, mas caminhámos juntos, como duas almas que já se conheciam há demasiado tempo para já não se reconhecerem. Lembro-me das pedras tortas da calçada, de olhar para o chão com medo de caír – mal sabia eu que já tinha caído na tua vida - a confiança insana de te confiar o meu caminho.
Um destino. Que destino? Não sabíamos. Aqueles bancos pareceram um bom começo. “Conta-me o que te magoa, eu conto-te o que me despedaça”. A vida saiu dos teus lábios, a minha seguiu o teu rumo. Ambos expirámos o sofrimento que nos enchia os pulmões. “Anda cá, dá-me um abraço, respira este conforto”.  O fôlego fez-se vagabundo – “Respira, já morreste demasiadas vezes”.
Encontrei a vida. Soube-a toda na noite. Afinal, eras tu o dia da noite. O telemóvel tocou. “Tenho de ir embora”. Um adeus penoso fugiu de mim. “Talvez te encontre noutra noite e te possa viver por mais um segundo”. Dois beijinhos e tornaste-te sombra. Levantei-me e segui pela calçada. A noite voltou a perder o sentido e eu fiz-me perdida de ti.


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Márcia Filipa. Com tecnologia do Blogger.