Preciso de falar contigo
03:38:00
Preciso de falar
contigo. Não te assustes. Na verdade, nem vai ser uma conversa. Vamos
encontrar-nos no jardim, onde já nos encontrámos tantas outras vezes. Por
favor. Só te peço umas horas.
Vou
encontrar-me contigo, onde tu provavelmente já me esperas e tu vais
levantar-te, e eu vou cumprimentar-te - dois beijinhos na face – como se nunca tivesse
tocado nos teus lábios. Sentamo-nos. Tu perguntas-me “Sobre o que é que querias
falar?” e eu vou tremer. Porque sempre soube que as palavras me iriam abandonar
– um pouco como tu me abandonaste, mas pronto. Tento expressar-me, mas algures,
sei que já me perdi no teu sorriso e que as minhas mãos querem andar em volta do
teu cabelo. Procuro que compreendas nos meus olhos o arrependimento, que
observes a ansiedade nos meus dedos inquietos e que, numa altura que não
consigo identificar, já te entreguei o meu coração. E tu não sabes que o tens,
aí, nas tuas mãos. Não sabes ou não queres saber.
Preciso de
falar contigo, mas não há palavras que digam o que sinto – posso espelhá-las
nos teus lábios? Posso expressar-me assim? Sem voz? Com um beijo? É um movimento
tão simples e que diz tanto. É aceitável?
A questão é:
um beijo de começo pode receber um beijo de despedida?
Porque tenho
a sensação de que te podes levantar do banco e ir embora com as palavras que
não foram ditas. Nesse caso, ficarei quieta, e sei que as palavras voltarão
todas para mim. Rrrr, nunca estão quando preciso.
Se ficares,
melhor. Aí dou-te um beijo de começo, e um de continuação, e outro de
continuação, e mais um e mais um, porque já desperdiçámos tanto tempo, e quero
perder-me em ti, porque, na verdade, fico mais perdida sem ti. Não gosto. Dá-me
a mão, seguimos caminho juntos, saltamos dos abismos, caímos ao chão e voamos,
porque sei que tens esse efeito em mim.
Por isso,
preciso de falar contigo. Encontrar-me contigo no jardim onde nos encontrámos
tantas vezes e ter uma conversa na tua boca.
Só te peço
umas horas.

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