Frio
05:07:00
Hoje o dia está frio. É Verão e o dia está frio. Acordei a
meio da noite, para me embrulhar nos lençóis e, mesmo assim, tremi. O meu corpo
gelou na madrugada. Inerte, frio e quase acordado. Olhou a realidade e faleceu.
Alguém o puxou para a vida. Não gostei. Não se toca no corpo
de um falecido. É desrespeitoso. Obrigaram-no a despertar, a despir a mortalha –
“Acorda! A vida está a bater à porta!”. Lá saí eu, porta fora, “Olá vida, detesto
que me acordem”. Lamentos? Nenhuns. “A tua obrigação é viver” – “Então porque me matas?” e a cobardolas
entregou-me ao silêncio.
Segui caminho com a vida, sabendo que quem segue a vida,
eventualmente, acaba morto.
O céu está enevoado, o vento arrepiante, e eu só penso que a
realidade decidiu refletir-me a alma. Está frio. O frio abraça-me, aperta-me nos
seus braços, quase me sufoca com as suas mãos. Estremeço. A minha respiração é
abafada, a voz contida, os movimentos dominados.
Não era suposto estar frio. Eu sei que choveu na minha
almofada ontem, e que, dentro de mim se criou uma tempestade, mas eu adormeci.
Os olhos fecharam-se e o corpo ficou inerte e frio.
Porque me acordaram? Eu sei que as gotas secaram e que a
tempestade tirou uma sesta, mas agora obrigaram-me a abrir os olhos e a vida
apresentou-se na sua perfeição ilusória. Deu-me a mão e disse “Olá, vou estar
contigo até ao fim” sem acrescentar que me ia atormentar até esse fim.
A verdade é que as nuvens estão negras, e não vejo a luz
exterior. Está tanto frio. Ouço os meus passos, mas sei que os meus joelhos já
caíram ao chão há algum tempo. Sinto o toque entorpecido – “Onde vais?” - Não
há resposta, só a omissão da sensação, o medo cego e uma estranha paz. Mas está
frio. E tremo convulsivamente. “Não me deixes” ouvi distante, num desespero de
quem perdeu o jogo. Larguei a mão.
Não há mais frio - o corpo inerte, o céu escuro, e é altura
de adormecer.
A vida não me matou, então eu decidi morrer para a vida.
- Eu disse que detestava que me acordassem.
0 comentários