Pedi-te que me beliscasses
15:32:00Pedi-te que me beliscasses e a realidade não saiu de mim. Pelo contrário, deu-me a mão, convidou-me e abraçou-me. Não gostei do abraço. Os braços que me percorreram eram demasiado frios.
Pedi-te que me beliscasses e o sonho não entrou em mim. Pelo contrário, deixou-me, abandonou-me, desprezou-me. Deixou-me com o real, entregou-me ao pesadelo.
Pedi-te que me beslicasses e... nada. Onde estás, que nem me besliscar podes?
Sei que estou acordada, mas sinto-me dormente. Os olhos abertos e a visão cega.
De que vale ter olhos, se não te vejo?
Não sinto formigueiros, ou arrepios... O vento passa por mim e eu nem sei se é frio ou ameno.
Estou à espera que chova. Estou à espera de poder trespassar os meus olhos pela janela e ver o arco-íris.
Sempre que vejo um arco-íris, vejo-te a ti. Tal com esse fenónemo, tu ocupas o céu inteiro, cativas toda a gente.
Mas não chove. E o céu escurece. E o pesadelo adensa-se.
Pedi-te que me beslicasses, onde estás?
Quero claridade, quero-te.
A realidade não gosta de mim, não me ama e é mútuo.
Para quê viver, quando se pode sonhar?
A minha pele ausenta-se do teu toque. Passou um dia, dois dias, três dias... Na verdade, foram catorze dias. Ela chama por ti. Treme como quem procura o calor do teu corpo e apenas do teu corpo.
Porque treme ela pelo que já não existe?
"Das cinzas ás cinzas, do pó ao pó".
Pedi-te que me beslicasses e agora não és nada mais que isto: cinzas e pó.
E a realidade atacou-me, cruel como sempre e eu indefesa como sempre.
Até uma sova de porrada dói menos do que a tua ausência.
Pedi-te que me beliscasses e o teu vazio preencheu-me...
Quando me beslicam o vazio de mim?

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