Não durmo há dias...

16:39:00

Não durmo há dias e não sei onde te meteste. Talvez te tenhas perdido nas curvas dela.
Não sei que paisagem os teus olhos observam ou a que ritmo o teu coração bate.
Não sei onde te meteste e não durmo há dias. Perdi a conta das manhãs e das noites, das noites e das manhãs...  Quanto tempo já passou? Quanto tempo falta?
Fecho os olhos e tento dormir, mas o meu corpo não adormece sem a presença do teu.
Onde estás? Continuas perdido nas curvas dela?
Sabes, há uns dias, finalmente, consegui adormecer (quem me dera não ter conseguido). Tremi, suei e acordei a gritar: tinhas ido embora.
Nesse caso, prefiro que te percas nas curvas dela.
Prefiro que te percas nela, do que te encontrar de olhos fechados e não sentir o ritmo do teu coração.
Vai, perde-te nas curvas dela (posse não significa nada quando o corpo já não vive).
Porque não te perdes em mim? De que valem as curvas, sem o teu toque? Ou os lábios sem o teu beijo? Ou o meu corpo sem o teu corpo? Ou eu sem ti?
Se não te perdes em mim, deixa-me encontrar-te.
Eu estava perdida e tu encontraste-me.
Tu andas perdido e eu não te encontro.
Porque não te encontro?
Sinto que te vejo tantas vezes e nunca és tu. Ali, na rua onde já não passeias, ou no café onde já não te sentas, ou no pequeno mercado em que nos conhecemos.
Alucinações? Talvez.
Desculpa. Não durmo, não durmo, não durmo.
Deslizo pela cama e observo o tecto. Pequenas luzes coloridas inexistentes caiem deste, como gotas de chuva... Tento agarrá-las, mas não consigo.
Alucinações? Sim.
Não me culpes. Não durmo, não durmo, não durmo.
Há pouco fui à casa-de-banho. A tua ausência trata-me mal. Tenho os olhos pesados, rodeados por umas olheiras profundas... O rímel esborratado...  O cabelo está desalinhado, a minha pele pálida e os lábios já não têm cor. Uso a mesma roupa desde o dia em que foste embora. Tinha esperança de que, quando voltasses, ma pudesses tirar. Ainda não penteei mais o cabelo, tinha esperança que mo desalinhasses mais, quando voltasses. Ainda não tirei a maquilhagem. Para quê? Lágrimas lavam-me o rosto.
Os meus olhos morrem na minha face. Diante de mim: o corpo vivo, a alma morta. A tua ausência trata-me tão mal. Não me queres vir tratar tu?
Volto a deslizar pela cama e enrolo-me. Está frio. Tudo está frio. Tudo é frio sem o calor do teu corpo. Também tens frio? Diz-me que não, tremo ainda mais se tiveres frio.
Olho em frente, para o vazio. Para o vazio daquela parede branca.  Da nossa parede branca. Onde ambos dançámos, descemos, subimos, extinguimos as respirações e, de alguma maneira impossível, voltámos a encontrá-las.
A minha respiração falhava-me sempre que estava contigo. Agora nem respiro.
Enrolo-me ainda mais. Tudo é um sufoco. Quando voltas?
Não te contei, há uns dias a tua mãe telefonou-me. Estava preocupada e eu não te quis preocupar. Perguntou por ti. Eu fui sincera. Disse que tinhas saído, que tivémos uma discussão, que bateste a porta com força e que te foste perder nas curvas de outra. Ela perguntou se eu sabia de ti e eu disse que sabia-te todo, mas que tinhamos tido uma discussão, que bateste a porta com força e que te foste perder nas curvas de outra. Ela não gostou de ouvir. Logo ela – uma mãe – que tal como as outras, tem um enorme orgulho pelos filhos; logo ela – a tua mãe - com um orgulho extremo por ti. Ela tentava falar, mas gaguejava muito. Parava sempre na mesma palavra: “Ele...”. E eu perguntava o que tu tinhas, se finalmente te tinhas cansado de te perder e te tinhas encontrado na casa dela, por acaso. Ela negou e falou tão rápido que ainda hoje não compreendo o significado das palavras dela: “Ele partiu”.
Ela tem razão: partiste. Tivémos uma discussão, bateste a porta com força e partiste.
Volto a observar o tecto. Já nem as alucinações me iluminam. Já não há nada para agarrar...
Não durmo há dias e perdi-te. Se te perdi, talvez seja altura de te encontrar.
Nunca te abandonei. Também não vai ser agora, meu amor. 
“...para a vida e para a morte", vamos viver a morte juntos?
Estou cansada... Os olhos não aguentam mais, nada aguenta mais... A tua ausência trata-me tão mal...

Resta a alma morta e o corpo morto.


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Márcia Filipa. Com tecnologia do Blogger.