Fomos donos do mundo

14:35:00

Quando abriste a minha camisa pela primeira vez, olhaste-me e disseste: “és tão bonita”. Não o disseste como o típico rapaz que o diz a todas as peles que olha, mas como o homem que me olhou realmente por dentro e foi inseguro por sentir que, talvez, não fosse capaz de corresponder a tal beleza.Costumavas deitar a tua cabeça no meu ventre e dizer “adoro a tua barriga” e eu ria-me, afirmando, num tom óbvio: “é uma barriga”. Então, olhavas-me lá de baixo, com aquele olhar de quem sabe um segredo e contavas-mo: “sim, mas é a tua barriga”.Gostavas de roçar o teu nariz no meu. Afastavas-te, olhavas-me e confessavas “adoro o teu nariz” e eu repetia-me “é um nariz”, como quem diz “é um nariz como tantos outros, porque é que o adoras?” e tu respondias a essa interrogação mental, como quem já sabe o que eu penso, sem eu o saber: “sim, mas é o teu nariz”.Eu sorria. Feliz. Sem perceber onde estava toda aquela magia que tu vias em mim, mas que me percorria. Ou que tu fazias com que me percorresse.Costumava-me deitar no teu colo, ou ao teu lado (mas sempre em ti) e dizia-te o nome das músicas que tocavam, ou então cantarolava envergonhada, porque a música de toda aquela relação era tua. Já a música dos nossos corpos era nossa.Costumávamos encomendar pizza e sentávamo-nos ali, naqueles bancos de cozinha, comendo e trocando olhares e eu só pensava “não quero trocar olhares contigo, quero-nos de olhos fechados”. Olhos fechados são a maior manifestação de amor. Só o cego vê o que sente.Sabes, nunca me esqueci da primeira vez que te vi a tocar piano. Ali, sentada, em cima da tua cama, olhando-te de costas e sentindo cada nota, cada palavra... Houve alguma vez, em que cantavas ou tocavas para mim, que eu não chorasse? Se houve, desculpa. Porque tudo o que a tua alma exterioriza é arte e toda essa arte me tocava mais do que teus dedos. Também nunca me esqueci da última vez que te vi a tocar piano. Ali, petrificada, apática. Não consegui ouvir a tua voz. Não consegui ouvir a tua melodia. Estavas ali, a uns passos de mim, e estavas tão distante... Não te sentia. Nem te senti mais, depois disso. Foi o fim. Sabes que é o fim, quando deixas de sentir (porque sentir demasiado ainda tem caminho).Sabes, depois de ti nunca mais tive uma pessoa que me quisesse corrigir a cada erro que dava (se leres este texto, com certeza, dir-me-ás que há um erro... ou mais). Hás-de encontrar uma vírgula a mais, ou uma vírgula que falta, uma palavra mal escrita ou uma palavra que não fica bem... Vais sempre encontrar algum erro. Então, pergunto-te, como me encontraste e me fizeste sentir tão certa? Lembras-te da tua camisola? De quando ma deste, naquele início de noite fria? Trouxeste-a dentro de uma mochila, para me aquecer. Peguei nela e pensei "não tem o teu perfume, gostava que tivesse o teu perfume", porque se tivesse o teu perfume, eu não usaria mais nada.Sabes, neste momento está ao meu lado. Está, enquanto tu não estás.Sabes, quando voltei a tua casa, a primeira coisa que procurei com os meus olhos foi o nosso livro. Não o vi. Não sei se valeu a pena ser escrito, mas escrevi-o. Também não sei se valeu a pena tentar, mas tentei. Não sei se valeu a pena viver-te, mas vivi-te.E tu viveste-me.Sabes, as coisas não precisam de um rótulo para serem sentidas.E eu senti-te. E tu sentiste-me. E, por momentos, fomos donos do mundo.Amei-te muitos dias, muitas vezes, em muitos lugares. O nosso amor nunca foi um dia e apenas quatro paredes. Fomos donos do mundo.E, hoje, despeço-me desse mundo.



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Márcia Filipa. Com tecnologia do Blogger.