Caminhos

15:57:00

Entrei no carro e lembrei-me de ti. Eras tu que me guiavas e me orientavas pela estrada da vida. Não havia caminho mais certo do que tu.

E agora conduzo, pego no volante e sigo. Já não me encontro mais ao teu lado, já não sou mais passageira.
E numa súplica mental peço para voltar aos momentos em que não sabia guiar, em que todos os caminhos eram desconhecidos para mim e em que eu apenas seguia as tuas mãos. E que mãos eram... Tinhas sempre as unhas aparadas e os teus dedos, apesar de serem muito grossos para as minhas mãos finas, encaixavam-se perfeitamente. Nada encaixou tão bem em mim, como as tuas mãos. Eras a peça perdida de um puzzle incompleto, que eu voltei a perder...
Quando te conheci, não conduzia, muito menos percebia algo sobre as estradas da vida. Era tudo desconhecido e devia permanecer tudo desconhecido. O que fosse para conhecer, que fosse ao teu lado.
Quando conduzias, usavas óculos e eu ria, não por ver-te assim, mas pelo que sentia ao ver-te assim: aquela admiração plena, aquele amor inestimável, aquela sensação indescritível...
Depois, quando me deixavas em algum lado, tiravas esses teus óculos rectangulares, mostravas-me o brilho dos teus olhos e beijavas-me... E que beijos eram! Nunca existiram lábios que encaixassem melhor nos meus do que os teus. Como podem esses lábios já não ser meus?
Sabes quantos lábios experimentei após os teus? É como começar a conduzir: no início tem-se medo de carregar no acelerador para avançar e depois só se acelera... Fui prego a fundo e adivinha? Fui mesmo ao fundo.
Tanta vez me deixei ser guiada por alguém com uma presença indiferente. Talvez por isso já me tenha perdido tanta vez... 
Só a tua presença me importa, só a tua presença me é diferente...Gostarias de me encontrar?
Tento voltar a pegar no volante e tento voltar a conduzir, mas toda a minha alma se direcciona para a rua fria: deambulando perdida, deambulando para trás... Procura algo que já não existe.
E, assim, saio do carro, fecho a porta, abandono a ausência do teu corpo e sigo a minha alma: deambulo perdida, deambulo para trás e procuro a presença de teu corpo...
Não faz sentido conduzir ao lado de quem não me conduz.




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Márcia Filipa. Com tecnologia do Blogger.