Luxúria

08:43:00

Flagraste a irrealidade. A vida notou a tua falta. A tua inexistência foi apanhada, a carência de ti segurou-me nos braços. A tua ausência agarrou-me com unhas e dentes – não podiam ser apenas as tuas unhas e apenas os teus dentes e, já agora, o teu corpo todo? A tua lacuna é um erro fatal e eu sou apenas de carne e osso – eu toda, para teu proveito. Sacia a carne, faz tremer os ossos. Não me jogues por terra, a tua falta que brinque enterrada! Passa-me a mão, põe-me nos teus dedos, não fales no vazio, apenas na vontade da minha pele. Tira-ma, descobre a nudez que te entrego e reduz-me a cinza. Irás cair por terra, eu sei. A privação da minha boca não te serve de nada. Arderemos e, quando chegar a hora, acabaremos no Inferno. Deitaremo-nos, lado a lado, com a língua de fora, sabendo que ela vai voltar a serpentear pelo meu interior. Faremos jogo duplo, porque, no fundo, temos duas caras. Tu irás assentar-me e eu irei deitar o cabelo, porque ambos sabemos que abrimos a Caixa de Pandora e que os campos elísios não são a nossa campa.



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Márcia Filipa. Com tecnologia do Blogger.