Incesto
08:35:00
Deitei-me no ninho de víboras que construíste para mim.
Fizeste as honras da casa, colocaste o pão na mesa e encheste a boca de fumo.
Passaste a mão pela minha cintura e impediste-me de te fechar o corpo. “Abre as
pernas, dá-me a tua pele que já não a podes salvar”. O ar familiar enojava-me.
Carregaste o sobrolho, os meus seios saltaram-te à vista. Decidiste atacar os
camaradas do corpo. Não me podias entrar pelos olhos. Não te escondeste, estava
na tua cara o prazer nefando. Não me permitiste manter a camisa de dormir.
Preferiste a carne fresca e a ti, proibida. A mãe pensa que caíste do céu, eu
só penso que decidiste sair do inferno para me mandar para lá. Peço que surja
uma luz nesta escuridão, que alguém me esboce uma ilusão – a realidade olha o
teu corpo em cima do meu e cospe no prato. O pão foi posto na mesa e eu fui
obrigada a comer o pão que o diabo amassou.
O mano acha-te engraçado, mas não sabe que és uma caixa
de humor negro – que maldade, que perversidade, que deturpação! Eu simplesmente
não valia o pão que comia, então decidiste colocar-me contra a parede. “Faz-te
à vida!” e lá fui eu morrer mais um pouco.
Acabaste de me bater e eu tenho de engolir em seco o
líquido com que me fizeste. Quem me dera ter a tua mão de ferro. Agarrar-te-ia
e acredita que nunca ficarias debaixo da mesa. Terias duas mãos em redor do
pescoço (não no que te agrada) e prender-te-ia a respiração. Já não haveria
aparências para salvar, muito menos tu. O diabo não morre, mas, com certeza,
pertence aos mortos.

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