Rendição

16:36:00


   Era de esperar que o mau viesse... O bom nunca dura muito tempo. Dura apenas o suficiente para termos um sabor dele e depois desvanece repentinamente, numa tempestade violenta e rápida.
   Eu sei, eu encontrei o meu sonho, mas e se o meu sonho não é o que idealizei? Quer dizer, eu sei que nunca vou estar satisfeita, nós, humanos, não fomos feitos para isso, mas sim para sonhar, desejar, concretizar e perder. E embora o meu sonho seja só voltar a ser feliz, não existe nem um pouquinho de saudades dessa felicidade. Nunca.
   É tão estranho... Sempre fui viciada no impossível e na dor: uma dose de adrenalina e sofrimento tão poderosa que criava anestesia própria: a frieza. E eu própria lutava contra essa frieza, contra mim, na esperança que acordasse da tentação que era ficar ali, sentada e gelada, acompanhada de memórias de nós. Esperava levantar-me e conseguir ultrapassar aquela barreira de gelo, mas sempre que me levantava vinham rajadas de vento tocar-me, com novas memórias, e o meu corpo ficava encantado com elas, caindo de joelhos, caindo no passado.
   Tanto tempo presa naquele buraco. A cada dia que passava a pele ficava mais pálida, os lábios mais secos... Os olhos já pareciam de vidro, já sem lágrimas para aquecer a dor. A alma ficava mais fria e o coração partia-se mais um bocado com cada pensamento.
   Tentei pegar nas peças, mas as mãos custavam a mexer. Tentei salvá-lo, tentei salvar-me, mas só tu é que conseguias resolver este puzzle, só tu conseguias trazer-me de volta e seres a minha salvação. Mas não vieste. Não te pedi para vires montado num cavalo branco, com uma espada nem todo perfeito como poderias ser. Eu só te chamei, só gritei por ti. Eu implorei! Mas tu não vieste... Não quiseste... Viraste-me as costas, foste embora e deixaste-me ali a morrer, deixaste que o meu coração se despedaçasse por completo ali naquele chão branco, que começava a ficar rodeado de vermelho..
   Mas sabes? Apesar do meu estado, nunca tive saudades da felicidade, porque a felicidade para mim eras tu. Éramos nós. E o nós não existia no presente, nem no futuro. Por isso, rendi-me ao gelo e ao passado.





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Márcia Filipa. Com tecnologia do Blogger.