Posse
10:35:00Não me
sufoques, já tive demasiadas mãos a prenderem-me o pescoço. Não me
deixaste dar-te uma palavra, o corpo já era
teu instrumento. A tua língua não se segurou e fechámos os lábios para fazer falar o silêncio.
Deixámos o mundo para trás. Tapaste-me a boca e colocaste-me
contra a parede, para me colar ao teu corpo. Calámo-nos
na presença dos nossos desejos. As
palavras não foram feitas para nos amar.
Tive êxito em
me perder quando encontrava a tua pele. O tempo cessou e restaram as mãos abandonadas. Não me escapaste pelos dedos, porque
sempre foste incerto. Não
lamentei a fuga, em vez disso, corri para o abraço de
quem nunca esteve lá para me receber - o mal
trocou de corpo. O instinto de morte nunca foi tábua de
salvação.
Não valeste
o vale de lágrimas, nem o leito de mágoas em que me deitaste. Carreguei a
cruz de te querer, na esperança de
poder ver as estrelas no teu olhar, mas o projeto deixou-se ficar no papel.
Trocaste de rainha para me colocares uma coroa de espinhos.
Inspiraste-me a essência
para a deixares perdida por outro corpo que não o
meu. Passaste os limites, quando a tua falta reinou a falta de ar.
Suspendeste-me nos teus dedos demasiado tempo para não te querer viver. Demasiados dias nas tuas mãos e agora percebo que sempre me
tiveste nelas.

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