Anoitecer
06:04:00Saí do banho e sentei-me no chão do quarto, mesmo em frente à janela teimosa que nunca se deixava abrir por completo.
Queria ver o anoitecer. Registei cada momento. O azul inocente foi manchado de cabelos de ouro e coberto de horizontes intocáveis.
O céu tingiu-se de rosa e eu pensei na tua pele - tão inalcançável como a pintura que se apresentava à minha frente.
O líquido rosa misturou-se com o teu toque de ouro e aí te vi - tão suave e tão almejado. A força das cores diluiu-se e nasceu um furacão roxo, matando as figuras do teu corpo.
Dispersou-se pelo céu na tentativa de fugir do seu crime. Conseguiu. A noite fez-se cega e cobriu o mundo de negro. Não vi o fim do vestido que usava - era longo e tinha pequenos brilhos que podia jurar ser o teu olhar.
Começara a chover. Não havia gotas na minha janela, mas a chuva escorria-me pelo rosto. Não estava vestida de negro - pelo contrário, mostrava a luminosidade da minha pele - mas o luto amadurecera em mim.
Olhei através da janela e desisti de te deixar ir. Sei que gostarias de estar ao meu lado, observando as maravilhas do mundo, desconhecendo o facto de seres uma delas. Mas tu só te permites ficar até amanhecer. Esta manhã não irás. Não deixarei. Pelo menos até te reconheceres na tela infinita que te apresento, aqui sentada.

0 comentários