6/05/2016
15:02:00
Leiria, 6 de Maio de 2016
Dear Love,
Já é Primavera, mas o Outono ainda deixa as suas marcas. A árvore que observo através do vidro é verde e alta, mas cobre-se de camadas castanhas, como se fosse neve de outra estação.
Chove, sabes? Não devia chover, sabes que só gosto de chuva no teu abraço. Vejo uma mulher de cabelos castanhos, como eu, a segurar o seu guarda-chuva preto e o rapaz, também de cabelos castanhos, como tu, segurando-a. As restantes pessoas da rua, saiem, abrem a sua proteção do céu e cobrem-se. O casal não vê o mundo, vê a chuva e vêem-se mutuamente - não é preciso mais nada. Nós também não precisávamos de mais nada.
Enfim, estou a escrever, pois não sei tocar. Tenho este lindo piano de madeira à minha frente, mas não lhe sei tocar. Queria tocar nas suas teclas, como toco na tua pele. Trocar meus dedos, cruzar minhas mãos... Nenhuma tecla é tua pele, mas cada uma dá música como a tua boca.
Estou aqui, parada no tempo, e só sei que fui alguém porque me tocaste. Sinto a minha existência a desvanecer, minha inexistência a ganhar vida. Toca-me outra vez, quero o relógio a mexer os ponteiros, as tuas mãos no meu cabelo. Toca para mim, como tocaste em tantas tardes chuvosas como esta: eu sentada na cama, tu sentado no banco e o tempo não passava. O melhor do tempo é ele não passar.
Desejava que cá estivesses para observares como o mundo nota a tua ausência. O céu chora e tantas lágrimas ele deita que não preciso de deitar uma gota. Para quê chorar, quando o mundo chora por mim?
Isto tudo para dizer que tenho saudades tuas. Desculpa, sabes que gosto de enrolar as palavras - mas não mais do que gosto de me enrolar em ti, não te preocupes.
Enfim, volta depressa, estou farta da chuva que deixaste em mim,
A rapariga que não gosta de chuva.

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