Fim
11:55:00 Pensei que fosse mais fácil afastar-me de ti. Pensei que era capaz de extinguir todas as palavras que queriam ser ditas. Extinguir todas as lágrimas que nascem, mas que nunca desaguam. Pensei que era capaz de extinguir os sonhos que não vão ser realizados e os sentimentos que me põem à beira do abismo.
Nos poucos dias que estive afastada de ti, pensei que tudo isso fosse possível. Mas não é, pois não? É apenas mais um sonho que não se realizará, um pesadelo que contraria toda a vontade do meu ser.
Um sonho que parece cada vez mais distante. Eu tento ir ao encontro da porta que me permitirá afastar de ti e seguir para minha vida, mas e se tu és a minha vida, o que é suposto fazer? Estás agarrado a mim de tal forma que nunca pensei que pudesse separar-te. Aliás, é mais do que uma simples corrente a prender-me a ti. É uma junção de corpos, uma junção de almas, pois tu, tu já fazes parte de mim.
Como é suposto separar-me de parte de mim própria, que eu desejo tão arduamente? Desejo-te com todo o meu ser, com toda a minha alma, com todo o meu coração. A cada segundo desejo ver-te a passar por mim. Desejo ver os teus olhos. Desejo ouvir a tua voz e sentir o teu sorriso tão viciante. Desejo tocar nos teus lábios e senti-los enquanto os nossos corpos se encaixam e a minha mão passa pelo teu cabelo. Desejo a felicidade. Desejo-te a ti.
E é um desejo tão forte e tão grande que já magoa apenas desejar. Porque desejamos o impossível e desperdiçamos o possível? Magoa desejar-te, magoa ver-te e saber que não te posso ter. Agora és como um fantasma que me assombra e me persegue. E apesar de eu te ver e sentir, não te posso tocar. Não posso cheirar o teu perfume magnético que me electriza quando me é levado pelo vento. Não posso tocar, não posso cheirar e não posso falar, porque se falar a bomba explode e se a bomba explode, eu caio por completo. Tenho de apreciar o silêncio. Estou condenada a ser prisioneira dele. Prisioneira do silêncio interminável, guardião de todos os segredos e sentimentos das pessoas. Mas condenada ao meu silêncio.
Quando é que esta chama se vai apagar? A chama que me queima por todo o corpo sem qualquer misericórdia, que se propaga e explode em labaredas cada vez maiores pelo meu interior. Eu fiz de tudo. Eu tentei. Eu fracassei. O fogo continua a alastrar-se e o mais irónico é que me torna cada vez mais fria e me prende a consciência, arrefencendo-a.
Isto não é o fim do mundo, mas é o fim de mim, porque o coração congelado levou outra pancada e despedaçou-se por completo. O coração já não bate. O sangue já não corre. E eu, eu caio cada vez mais. Eu mergulho cada vez mais até ao escuro, até ao fim.

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