Nenhum final é feliz

17:56:00

“Porque não sou suficiente?” é a questão que me perturba todos os dias. O que sou para não te merecer? Que maldade te trago todos os dias?

Ás vezes, desejo que não me pertenças. Ou que eu não te pertença. Ás vezes, quase desejo não te dever nada, muito menos a vida.

Esmurra-me de uma vez, caralho! Grita comigo, berra tudo o que nem pensar deves! Toda essa violência e, talvez, eu fosse capaz de te virar as costas que fortaleceste com tudo o que não foste capaz de não fazer.

Lanças pardais ao ninho, deitas-te na cama que fazes. Consegues dormir descansado nesse leito que não passa de um caixão? Não te submerges em todo o ódio que agitas? Cavas tão fundo, que talvez te tenhas esquecido de que ergues a tua campa.

De que desespero, de que raiva, de que fúria foi eu a causa? Talvez tenha sido a consequência daquilo que não conseguiste apagar. Ninguém te pediu para esquecer, mas mandar pelas costas o que te agarra à escuridão, talvez seja uma capacidade que tenhas de adotar.

És um drama capaz de fazer a audiência deixar o circo pegar fogo. Tu violentas a própria violência. O que esperas alcançar? Paz? Como, se declaraste guerra a ti e a quem te ama?

Cercas todos os que te rodeiam com uma coleira de cólera. A raiva é mais tua do que todos os que são teus.

Bum! Mais uma explosão para a cara que já não reage. Não há lágrimas para limpar, quando o sangue suja o rosto que ninguém quer cuidar.

A ira, a fúria são mais fortes do que a tua mão. Arrebata-me a alma. Não há corpo vivo por onde se pegar.

Os acessos de raiva inquietam até o tigre, o puma e a pantera. Superas o lobo, o lince e até o leão. És o leopardo, o jaguar da sofreguidão.

Ressentes o amor que te foi negado. O desprazer que te foi retirado. Ranges os dentes e bufas a ira. É assim que respiras?

Tens o olhar ardente de uma fera capaz de me pôr uma cara de réu. Pensas apresentar-te no purgatório, declarando-te inocente? Deixa-me aconselhar-te: contrata o advogado do diabo.

Olhos envinagrados sempre me foram azedos. Olhos de água sempre me foram familiares. Cortas na pele o que atiraste à alma.

Sempre jogaste pedras em vez de felicidade. Essa língua de cobra é uma merda para se jogar na lama.

Reprovas-me continuamente, como se fosse um aluno incorrigível que não fosse mais do que um burro de fado marcado.

Ateias dois fogos, para teres a certeza de que não consigo evitar queimar-me. Aqui me apresento, com as feridas das bofetadas sem mão.

O tempo fechou quando decidiste pôr o pé na guerra. Sempre foste o reverso da medalha que trazias no peito.

Risca-me da folha que já desististe de escrever com um final feliz. Nenhum final é feliz, muito menos nenhuma frase desta história mal escrita. Aqui te deixo, na saudade de quem já não és.


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Márcia Filipa. Com tecnologia do Blogger.