Agendar a vida
12:24:00Deteto a tua presença a renascer no vazio da minha lembrança remota. Há um cheiro carbonizado no ambiente que me envolve. Passa-me um protesto pelos olhos. Protesta-me a alma, enquanto apenas tu me enches a vista - aí, em frente ao tribunal, rabiscando na agenda preta.
Ocorre-me perguntar-te onde fica um lugar que já conheço. Uma desculpa esfarrapada, só para te apresentar a minha figura pouco nua. Coloco-me a hipótese de registar as tuas estruturas. A superfície da tua pele, as tuas mãos idênticas, a variação dos teus sorrisos. Dás-me permissão para me colocar sob as tuas dessemelhanças? Não me respondas. Ainda não. Deixa-me discursar pelos lábios.
Avanço pela calçada, descalça, mas ainda pouco nua e observo que ocupas lugares diferentes na mesma rua. O desejo de que me ponhas a subir pelas paredes reflete-se em todas as casas demasiado opacas. Encontras-te a poucos metros e eu preparo-me para conhecer outra ruela. Ouço a queda do livro em que marcas as horas a que vais viver.
Apanho a agenda que me caiu aos pés e pergunto: ao meio-dia, podes viver-me?
Aceitas o caderno e agarras na caneta para registar que a vida chega daqui a duas horas.

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