Tudo te pertence
07:32:00
Tudo te pertence. Não estás cá, mas tudo te
pertence. Tudo é teu. Toda a minha visão te contempla. Toda a minha audição é
tua voz. Todo o perfume te carateriza. Todo o toque é a tua pele. Todo o sabor
te prova. Não estás cá, mas tudo te pertence. Não estás cá, mas pertences a
tudo. Pertences a tudo, menos a mim.
Todas as ruas têm teu nome. Já não sei o que é
passar por uma avenida, sem te imaginar lá. Já não sei o que é passar por uma
avenida em que tu passas frequentemente e não ter o coração nas mãos, com a
possibilidade de te poder ver. Já não
sei o que é percorrer cada caminho, sem me ver a teu lado. Não sei. As ruas
estão cheias, mas eu estou vazia... Ou talvez cheia de ti.
Todos os bancos são uma página. Passeio, na
esperança de te ver. Sabendo que se te ver, eu não passeio, caio. Sabendo que
ao pensar em ver-te, tudo em mim treme e, mais uma vez, caio. E todos os bancos
são uma página. Rasgada. Uma após a outra. Rasgadas. Todos os bancos são uma
página riscada, numa história sem sucesso... Inacabada... Ou talvez demasiado
acabada.
Toda a cama tem a tua presença. Debaixo dos
lençóis, no sujo do chão ou no frio da parede. Toda a divisão tem a tua
presença. E todo o meu ser sofre com essa presença. Todo o meu ser sofre com
este presente, onde a cama reclama por ti, onde os lençóis te chamam para me
cobrir, onde o chão ordena ser limpo e a parede aquecida com o teu corpo.
Apenas o teu.
Em todas as palavras, lá estás tu. Para me
fazer chorar e sorrir. Para me tranquilizar e enfurecer. Para me fazer amar e
odiar. Para me levantar e atirar. Para me fazer voar e cair. Para me fazer
lutar e desistir. Para me fazer desejar e detestar. Para me fazer gemer e
gritar. Em todas as palavras, lá estás tu. Estás onde não há palavras tuas,
apenas palavras de ti.
Tu. Tu que pertences a tudo, não pertences a
mim.
Pertences a tudo, menos a mim.

0 comentários