Julgamento
12:51:00Cometeste o delito de aparecer perante os meus olhos. Foste um atentado à tranquilidade que me corria pelo corpo. "De quem é a culpa?" pergunto. "Qual foi a tua intenção?" questiono. E tu encolhes os ombros no teu jeito de dizer que não pretendias violar nenhuma lei, mas que a moral desaparecera, que nunca foste crente em algum ser para te salvar e que amar não parecia ser um ato assim tão condenável.
Admites que a falta que cometeste no jogo da vida se deveu à falta que eu praticava sob o teu corpo. Admites a responsabilidade do teu erro, mas que se errar é assim, que queres ser um pecador eterno. Admites que falhaste, mas que eu também falhei, pois não apareci na tua vida quando ainda eras sonhador e ingénuo e que decidi comparecer quando já não vias o sentido em marcar presenças, visto que todos pareciam se ausentar.
Perguntam-te se pecaste e tu dizes que se o mundo me considerar um pecado, então sim, que foste o maior pecador que alguma vez existiu. Afirmas que me queres sempre mais e que me vês aqui, sentada, e que me desejas nos teus lábios. Vertes uma lágrima. Não te contentas com a minha falta nos teus dedos. Afirmas que o que sentes é excessivo e descontrolado, mas que sou prioridade e que Deus fica a um canto ao meu lado. Chamam-te tolo. Acusam-te de luxúria e tu sorris. "Quem vos dera deixarem-se dominar pelas paixões". Desafias a vida e sussurras que te toldei o raciocínio e que o teu castigo e execução são escolha minha, que é a tua vida que tem a tua vida nas mãos. Admites que me queres possuir entre a bravura de quatro paredes e no espaço infinito que o mundo ocupa em nós. Admites que negligencias o poder da morte, porque já morreste em todos os tempos em que não me tiveste. Admites que sou motivo de orgulho e que, mesmo que estivessem todos no céu, que teriam de me olhar de cima.
"Que ultraje! Que ofensa!". Coitados. Ainda não provaram um homem apaixonado. Construíram todos casas com telhados de vidro, que ainda não sabem como é um telhado a sério. O rubor cor de tijolo das tuas faces quando te beijava as linhas divinas que alguém arquitetara. O tom incostante da tua pele de madeira nas sombras que deixávamos por casa, enquanto rolávamos pela cama. A nuance acimentada do teu cabelo, quando eu o puxava para te poder usufruir ainda mais. Que sabem eles? Acham que deste um passo em falso, quando todos os passos foram certos. Se caminhaste na minha direção, poderiam eles ser errados? Eles declaram-nos um erro fatal, mas, no fundo, só gostavam de estar tão certos como nós.
É hora da sentença. Não ouças o que eles dizem, ouve apenas a minha voz, porque eu vou condenar-te à pena mais pesada até hoje declarada. Estás pronto? Diz-me que estás, porque eu nasci pronta para ti. Acenas com a cabeça e eu declaro-me:
"Condeno-te a passar o resto da vida comigo".

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