Tentei
escrever poesia, mas não consegui. Então pus esta música de piano deprimente
que, ironicamente, se chama 'Goodbye'. Tudo começou com uma melodia. Com a voz.
Com uma alma.
Tudo
começou com um sussurro que essa voz provocou na minha alma. Deixei-me
absorver. Deixei-me hipnotizar. Como quem se afoga no ar que tem de respirar.
Ouvi a perdição na tua voz e depois vivi essa perdição. Vi a minha vida em cada
palavra tua, vi sensações e a pele nua, tive alucinações de dor e de dúvida,
afoguei-me no Inferno e desci até á Lua. Reconheci meu sofrimento, meu desejo,
meu desespero no teu canto.
E,
um dia, a música terminou. Eras apenas tu. E eu ouvi-te. Um dia, as luzes do
palco apagaram-se e eu vi-te. Ensaiaste com tantos e falhaste perante mim. A
personagem apagou e restaste tu. Eras apenas tu.
Eu
conheci-te. Mais do que querias e mais do que demonstrávas. Mas eu conheci-te.
As almas descobriram-se. Revelaram-se uma perante a outra. Alma para alma.
Apenas alma para alma. Uma pegou na mão da outra e levou-a para o palco.
Dançaram no escuro. Uma sabia dançar, outra não. E lá se perderam onde se
encontravam. Há tanta beleza em perdermo-nos onde nos encontramos...
Mas
ninguém pode dançar sozinho, quando a dança exige um par... Certo? E a alma que
não sabia dançar, perdeu-se cada vez mais a cada passo.
A
escuridão que era o canto deles, o seu refúgio, a sua proximidade, tornou-se
numa prisão em que um dançava por dançar e outro dançava para sentir a alegria
que sentira outrora a dançar.
As
personagens no chão voltaram a ser erguidas. Um fato para cada um. Talvez novas
personagens, cubram a existência das velhas.
A
música terminou. A dança acabou. 'Broken Hearts' começou a tocar...
Os
dois ainda estavam no palco, vestindo os novos fatos, tentanto desvendar se
gostavam do seu novo papel ou se preferiam simplesmente voltar a dançar, sem o
saberem fazer.
Ele
tentou agarrar na mão dela várias vezes. Ela tentou segurar no seu braço umas
vezes mais. Ambos tentaram espelhar o seu desejo nos lábios do outro. O que
faltava? Ambos queriam. Ambos gritavam 'Volta!' nos seus olhos e, no entanto,
ambos se calavam no seu desejo.
O silêncio levou ao silêncio, o
afastamento levou ao afastamento. Ela foi-se embora. Tempo. Era necessário
tempo. Para aprender a dançar, a querer dançar. Para aprender a revelar-se
novamente e a esquecer o seu novo papel. O tempo era necessário. O tempo é
sempre necessário. Mas cada grão de areia que caía, era um pequeno ponto que
marcava o final.
Ele
tinha aceitado o fim. Tinha se convencido do fim. Mas ainda havia o desejo de
voltar a dançar. Não de dançar, mas de dançar com ela.
Voltaram
a encontrar-se. Ali, num banco de jardim, como tantas vezes tinham feito
anteriormente. Mas nunca naquele banco.
O
vento acariciava-os, a luz confortava-os... O oposto do escuro do palco. Talvez
desta vez não se perdessem, onde de encontravam. Talvez desta vez se
encontrassem, onde se perderam.
Talvez
o vento os levasse, como levava as pequenas bolinhas verdes dos ramos. Ela não
parava de olhar para essa transição tão transparente, onde os pequenos seres
caíam nas pedras da calçada. Agarrou em duas. Achou-lhes piada. Disse que eles
eram aquelas duas bolinhas. Ela era a maior e ele a mais pequena.
Porquê?
Algum dia te perguntaste porquê? Porquê bolinhas? Porquê aquelas?
Reconheci-nos.
Esses pequenos seres sabiam bem os seus papéis e o vento arrancou-lhes as
folhas, tirou-lhes o conhecido, desfolhou as camadas. Eras tu e eu. Nós
atravessámos aquela queda juntos e caímos separados.
Tu
eras a mais pequena, porque é isso que demonstras ao mundo: pouco. Eu era a
grande, porque desde o início fui transparente contigo. Eu desfolhei-te aos
poucos, mas sempre fui um livro aberto para ti. Tu leste-me. Tiveste esse
privilégio. E passaste páginas à frente.
Eu
criei memórias, mas perdi-me nas histórias. Eu aprendi os compassos a dançar,
mas perdi-me nos passos a andar. Eu fui levada pelo vento e esmoreci no
pavimento. Nós esmorecemos no frio chão de pedra. Tal como as duas bolinhas
esmoreceram nas nossas mãos... Nós esmorecemos.
- 15:26:00
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