15:26:00


Tentei escrever poesia, mas não consegui. Então pus esta música de piano deprimente que, ironicamente, se chama 'Goodbye'. Tudo começou com uma melodia. Com a voz. Com uma alma.
Tudo começou com um sussurro que essa voz provocou na minha alma. Deixei-me absorver. Deixei-me hipnotizar. Como quem se afoga no ar que tem de respirar. Ouvi a perdição na tua voz e depois vivi essa perdição. Vi a minha vida em cada palavra tua, vi sensações e a pele nua, tive alucinações de dor e de dúvida, afoguei-me no Inferno e desci até á Lua. Reconheci meu sofrimento, meu desejo, meu desespero no teu canto.
E, um dia, a música terminou. Eras apenas tu. E eu ouvi-te. Um dia, as luzes do palco apagaram-se e eu vi-te. Ensaiaste com tantos e falhaste perante mim. A personagem apagou e restaste tu. Eras apenas tu.
Eu conheci-te. Mais do que querias e mais do que demonstrávas. Mas eu conheci-te. As almas descobriram-se. Revelaram-se uma perante a outra. Alma para alma. Apenas alma para alma. Uma pegou na mão da outra e levou-a para o palco. Dançaram no escuro. Uma sabia dançar, outra não. E lá se perderam onde se encontravam. Há tanta beleza em perdermo-nos onde nos encontramos...
Mas ninguém pode dançar sozinho, quando a dança exige um par... Certo? E a alma que não sabia dançar, perdeu-se cada vez mais a cada passo.
A escuridão que era o canto deles, o seu refúgio, a sua proximidade, tornou-se numa prisão em que um dançava por dançar e outro dançava para sentir a alegria que sentira outrora a dançar.
As personagens no chão voltaram a ser erguidas. Um fato para cada um. Talvez novas personagens, cubram a existência das velhas.
A música terminou. A dança acabou. 'Broken Hearts' começou a tocar...
Os dois ainda estavam no palco, vestindo os novos fatos, tentanto desvendar se gostavam do seu novo papel ou se preferiam simplesmente voltar a dançar, sem o saberem fazer.
Ele tentou agarrar na mão dela várias vezes. Ela tentou segurar no seu braço umas vezes mais. Ambos tentaram espelhar o seu desejo nos lábios do outro. O que faltava? Ambos queriam. Ambos gritavam 'Volta!' nos seus olhos e, no entanto, ambos se calavam no seu desejo.
O silêncio levou ao silêncio, o afastamento levou ao afastamento. Ela foi-se embora. Tempo. Era necessário tempo. Para aprender a dançar, a querer dançar. Para aprender a revelar-se novamente e a esquecer o seu novo papel. O tempo era necessário. O tempo é sempre necessário. Mas cada grão de areia que caía, era um pequeno ponto que marcava o final.
Ele tinha aceitado o fim. Tinha se convencido do fim. Mas ainda havia o desejo de voltar a dançar. Não de dançar, mas de dançar com ela.
Voltaram a encontrar-se. Ali, num banco de jardim, como tantas vezes tinham feito anteriormente. Mas nunca naquele banco.
O vento acariciava-os, a luz confortava-os... O oposto do escuro do palco. Talvez desta vez não se perdessem, onde de encontravam. Talvez desta vez se encontrassem, onde se perderam.
Talvez o vento os levasse, como levava as pequenas bolinhas verdes dos ramos. Ela não parava de olhar para essa transição tão transparente, onde os pequenos seres caíam nas pedras da calçada. Agarrou em duas. Achou-lhes piada. Disse que eles eram aquelas duas bolinhas. Ela era a maior e ele a mais pequena.
Porquê? Algum dia te perguntaste porquê? Porquê bolinhas? Porquê aquelas?
Reconheci-nos. Esses pequenos seres sabiam bem os seus papéis e o vento arrancou-lhes as folhas, tirou-lhes o conhecido, desfolhou as camadas. Eras tu e eu. Nós atravessámos aquela queda juntos e caímos separados.
Tu eras a mais pequena, porque é isso que demonstras ao mundo: pouco. Eu era a grande, porque desde o início fui transparente contigo. Eu desfolhei-te aos poucos, mas sempre fui um livro aberto para ti. Tu leste-me. Tiveste esse privilégio. E passaste páginas à frente.
Eu criei memórias, mas perdi-me nas histórias. Eu aprendi os compassos a dançar, mas perdi-me nos passos a andar. Eu fui levada pelo vento e esmoreci no pavimento. Nós esmorecemos no frio chão de pedra. Tal como as duas bolinhas esmoreceram nas nossas mãos... Nós esmorecemos.

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Márcia Filipa. Com tecnologia do Blogger.