Descalça-te, amor
16:19:00Partiste-me quando partiste.
Agitaste a tua mão e o copo de vinho espalhou-se pelo chão.
O vidro partiu-se. Estilhaçou-se.
O licor que te percorria os lábios e te costumava envolver,
deixou-se ficar entre os pedaços destroçados e envolveu-os, quando deixou de te
envolver a ti.
Andaste sobre os bocados quebrados, como quem anda sobre a
terra onde nasceu:
Altivo, majestoso, indiferente.
Claro, não estavas descalço.
Todo aquele tempo contigo e nunca vi que não estavas
descalço.
Só quem ama, anda descalço.
Chegava a tua casa e a primeira coisa que fazia era
descalçar-me, nunca reparaste?
Deixava-me andar e permitia-me sentir. Sentir tudo.
Ou talvez esse sentir tudo fosse apenas sentir uma coisa:
amor.
E tu nunca te descalçaste.
Quanto mais longe do chão, melhor.
Então eu permitia que voasses.
Eu descalça e tu voador.
Só não esperava que não aterrasses.
Permiti que os meus pés sofressem e experimentei ser como
tu:
Altivo, majestoso, indiferente.
Não consegui.
O licor agora percorria-me e o vidro estilhaçado, partia-me
a cada passo dado.
Tudo porque estava descalça e tu nunca te descalçaste
sequer.
Porque só quem anda descalço, ama.

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