Jogos de vida e morte

11:14:00

A Morte age como um Deus cego. Tapa os olhos com uma mão e aponta o dedo como a criança inocente que não é. E, assim, a vida do alvo esmorece. E que alvo é esse? Não sei. Que fez ele para ser alvo? Não sei. É tudo um jogo de azar ou sorte?
Um dó li tá, morreste. E os outros ficam a chorar a tua morte, a perguntar-se o sentido da vida, se eles vivem ou estão tão mortos como o corpo do cadáver pálido que esmorece perante eles.
Pensam no quanto a vida é vã. Sentem-se mal por viver, mas um pequeno alívio por não serem eles a adormecer eternamente. Pelo menos, não já. E sentem-se mal por acordarem de manhã e pensarem “não quero levantar-me da cama” e, quando se levantam da cama, pensarem “o que é que eu vou vestir?” e olharem para o telemóvel e questionarem-se “porque é que ainda não me respondeu?”. E sentem esta hipocrisia momentânea e não agradecem por terem mais um dia para acordar e a oportunidade de pensarem isso tudo.
Não pensam que, talvez, quando a Morte estivesse a fazer o seu jogo sádico, o seu dedo pudesse ter apontado para ti e “um dó li tá, morreste”.
E, nesse jogo permanente, uns morrem e outros choram a morte. E, ironicamente, uns vivem e outros choram a vida. Pensam que a morte é sinónimo de paz interior, mas não há paz no que não está vivo. Como podes sentir algo, quando nem te é permitido sentir? Como podes querer sentir algo, quando já nem ser és?
Vida é vida. Mesmo que não saibamos viver. Mesmo que sejamos corpos vagabundos. Sabes, nesse teu corpo vagabundo, tens um coração que bate e motivos que o fazem bater. Isso não é razão suficiente para viver?
E não é irónico como a Morte é cega e nos abre os olhos? Até ao fim tudo faz sentido. O passar a disciplinas desinteressantes, o arranjar um bom trabalho, o ter dinheiro, o ter centenas de utensílios desnecessários... Até ao fim, tudo isso faz sentido. Só quando vemos o fim, vemos que metade da nossa vida não foi vida, mas sim futilidade.
E os nossos olhos abrem-se perante todo o desperdício que fizemos e somos. E, por uns momentos, pensamos em corações que batem e que perdemos e, por uns momentos, pensamos em encontrá-los. Por uns momentos, encontramos mesmo. Depende do tamalho do orgulho de cada um.
Mas nenhum olhar consegue manter-se eternamente. E os olhos fecham-se... Lentamente. E, lentamente, voltamos a viver a futilidade. E acordamos sem pensar que, mais uma vez, tivémos sorte neste jogo sádico. E adormecemos sem pensar que, por mais um dia, vencemos esse jogo.

Porque um dia, todos perdemos.


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Márcia Filipa. Com tecnologia do Blogger.