Carta a quem perdi
04:10:00Já estou convicta de que isto é o certo a fazer. Fiz tudo o que considerei ser melhor para nós, pondo-me sempre de parte, pondo sempre de parte o que eu precisava e o que eu merecia. Já tu, nunca pensaste em nós. Olhaste para ti e pensaste: quero ser livre. E foste. E decidiste terminar algo magnífico que nós construímos juntos. Decidiste mandar-me embora, uma e outra vez, e também decidiste, uma e outra vez, que não me podias deixar ir. Durante meses, trataste-me mal, menosprezaste-me, pensaste em mim apenas quando estavas em momentos mais difíceis. E eu estive cá sempre. Quis experienciar os teus momentos bons e quis apoiar-te nos maus. Quis ser a pessoa que tu eras. A que tenta resolver tudo, a que engole o orgulho, a pessoa que respeita, não levanta a voz ou insulta. Eu fui essa pessoa. Não sempre, mas quase. Eu tentei. Disseste: quero experienciar isto com toda a gente menos contigo – e eu aceitei. Disseste: quero tempo – e eu respeitei. Quis melhorar, quis resolver as coisas – nunca deixaste. E, mesmo assim, eu tentei. Tentei o amor, tentei a amizade, tentei o respeito. E tu desprezaste tudo.
Sei que a raiva é o caminho mais fácil. Sei que é esse o caminho que estás a seguir. Tentar encontrar todos os pequenos defeitos da nossa relação, todos os raros maus momentos que tivemos e dizer "nunca iria resultar". Mas, se calhar, até iria. E, quando essa raiva, que nunca será eterna, passar, talvez o vejas.
Nunca fui perfeita. Nunca o tentei ser. Mas amei-te como ninguém. E, não tenho dúvida alguma de que te dei tudo o que podia – e também o que não podia. Se não foi suficiente? Lamento, eu tentei. Se foi demasiado? Então, também lamento. Lamento que não tenhas conseguido aceitar o que ninguém te deu e, provavelmente, nunca dará – porque dois amores nunca serão iguais. O que tu nunca viste nesta relação é que os sacrifícios são necessários. São necessários, mas não devem soar a sacrifícios. Se eu sacrifiquei o meu tempo, a minha sanidade, experiências por ti? Sem dúvida. Se alguma vez me soou a sacrifício? Nunca. Porque eu tomei as minhas escolhas, as que considerava serem melhores para nós, e, durmo hoje, e todos os dias, de cabeça descansada, sabendo que fiz tudo ao meu alcance. Eu pus-te em primeiro. Eu dei-te o poder de seres a razão da minha felicidade e o poder de me destruíres. Mas não mais. O mais precioso que levo comigo, do nosso tempo juntos, foi saber que mereço ser amada e, melhor do que isso, bem amada. E tu já não me podes dar isso.
Talvez encontres aqui o motivo para me abandonares definitivamente, para aliviares esse peso morto que carregas no peito; talvez encontres aqui a razão para me culpares. Mas a verdade é que tanto me mandaste embora, que conseguiste que fosse. Esperei, esperei e esperei. Dei-te inúmeras oportunidades para provares que eu estava enganada, que o que parecia não o era, para que reagisses, para que as tuas ações correspondessem às tuas palavras. E tu deixaste-me ir. Desististe. Permitiste-te ter saudades minhas e nunca as matar. Permitiste-te matar-nos. Permitiste-te nunca me permitir salvar-nos. Mas a verdade é que mesmo se pudesse, não o poderia fazer, porque esta casa que construímos precisava de nós os dois. Um nunca pode amar pelos dois. E eu acreditei que sim. Eu acreditei que todo o amor que tinha para te dar nos poderia salvar. Que nos poderia amar por mim e por ti. Mas não posso. Nunca pude. E isso mata-me. Porque o amor era tanto, mas não era suficiente…
Espero que valha tudo a pena. Que a liberdade que tens agora valha o abandono de uma possível vida juntos. Não te culpo. São escolhas. Eu fiz as minhas, tu fizeste as tuas. Tu escolheste-te. Eu escolhi-nos. Mas espero que, um dia, tenhas a decência de vir falar comigo, depois de começares a ser honesto contigo mesmo, e me digas os motivos verdadeiros, aqueles que ocultas ao pintar-me de negro, defeito atrás de defeito, para poderes dormir descansado sabendo que foste justo para contigo mesmo, quando, na verdade, te andas a enganar mais do que a mim. E, espero que, nesse dia, não sejas orgulhoso e me peças desculpa por toda a merda que estás a fazer. Porque tu sabes que não estás a agir bem. Porque tu não te deste à ligeireza de me partir o coração, mas de quebrar cada pedaço até não sobrar nada. E, mesmo assim, eu tentei, eu respeitei-te, eu esperei, eu fui-te leal. E é fodido pintar uma pessoa de negro quando tudo o que ela te oferece é razões para a amares. Não há problema. Já passou. Como tu dizes: não aturaria esta merda por ninguém e tu não és exceção.
E quero que saibas que não espero uma resposta a esta mensagem até, porque, na verdade, não espero nada de ti. Quer seja esperar por uma resposta tua ou esperar que voltes. Não sou a tua "rede de segurança". Não sou algo que abandonas para depois voltares. Especialmente, tratando-me assim. E sei que, um dia, quando baixares esses muros e deixares a realidade bater-te com a força com que me bate a mim, vais perceber. Vais perceber o que fui, o que aturei, o que tentei, o quanto te amei. Mas, por agora, chega. Só nos estamos a destruir um ao outro. Eu quero poder olhar para trás e dizer “foram os melhores da minha vida”. Não quero olhar para trás e pensar “que puta de desperdício, dei tudo por nada”. Nós precisamos disto. Distância. Distância verdadeira. Porque, de momento, somos tóxicos um para o outro. E, ao continuar assim, não restará nada. Nem amor, nem carinho, nem respeito. Tudo será irrecuperável, ficaremos apenas reduzidos à mágoa que forçámos um no outro.
Eu vejo este fim, ou esta pausa, como uma morte. É preciso esquecer, é preciso seguir em frente. E como é que é possível avançar, se o amor morto continua a ressuscitar? Ainda por cima, não sendo o amor que conhecemos, mas uma figura distorcida e negra que cresce em ressentimento, culpa e dor; que cresce a cada discussão, a cada palavra lançada em raiva.
Eu tentei salvar-nos. Eu tentei salvar-te. E isto não sou eu a desistir. Sou eu a dar-nos a oportunidade de nos curarmos, de nos vermos como realmente fomos: belos e quase perfeitos; amigos, melhores amigos, amantes e namorados. Tu foste-me tudo. Mas já não o podes ser. Porque tu decidiste reduzir-me a nada. E, por momentos, foi isso que eu fui: nada, ninguém. E, agora, sou alguém, sou eu mesma. Nunca te devia ter entregue o fardo de seres o meu mundo inteiro, assim como nunca devia ter-te entregue o título de «é desta vez, é ele que me vai provar que existe um sempre». Mas não existe. E eu sempre o soube. Contigo, nunca vi o fim. E, contudo, ele chegou. E não posso continuar a escrever onde já não há linhas. No entanto, gostava que tivéssemos a oportunidade de ter um final feliz. E, se tivermos de escrever outra história, então escreveremos, mas esta precisa de um ponto final.
Obrigada por tudo o que foste e obrigada por tudo o que pudeste ser. As pessoas têm razão: sempre fomos pessoas muito diferentes, mas tornámo-nos muito típicos um do outro. Amámo-nos da mesma forma, embora de maneiras muito diferentes. Fomos magníficos, grandiosos, excelentes. Fomos felizes. Fomos muito felizes. E, melhor, fomos verdadeiramente felizes. Amámo-nos como ninguém. E nunca ninguém nos pode tirar isso - nem mesmo nós, por muito que queiramos.
Com amor,
Quem te perdeu
0 comentários