Adeus
05:17:00
O céu nublado. Uma escuridão latente. Sem estrelas. Um
vestígio de nada.
A luz da rua oscila. A tua ausência permanente. Corpo
moribundo rastejando pelo passeio no compasso de quem espera o clímax de uma
melodia que há muito parou de tocar.
Desvaneceste. Um gemido de lágrima. Sem gesto penoso. Uma
falta de tudo.
Procuro chorar. As lágrimas queimam-me os olhos ao ponto de
os querer afogar, mas não choro, não choro. Há nascente, mas não há foz. Há
gente, mas não há nós.
Não há ninguém no mundo. Não o pode haver, quando todo o
mundo é alguém. Ora fosse eu cientista para demonstrar que o mundo não gira
sobre si, mas sobre ti. Chamar-me-iam idiotas e não estariam errados.
O vazio de tudo enche-me de nada. Choro na ironia de nunca haver
um sempre e de haver sempre um nunca.
Pergunto-me se será ser solitário ser assim, majestoso?
Digo-o a partir do frio da pedra que me marca a pele irregular.
Sou ninguém. Encharcada num choro inexistente, num latido
que me sufoca. Ora soubesses tu como essas mãos me prendem a respiração e
talvez parasses de me matar. Só um pouco, imploro. Não mereço, não mereço.
O corpo treme na angústia de ser descartável, de a alma ser
apenas um peso morto que nem pode ser vendido ao quilo – ou ao diabo.
Sonhei com anjos para cair nos braços da morte. Sabia lá eu
que sorriso bonito ela tinha. Chamou-me, eu fui e aí permaneço, no limbo de
quem já não existe.
O céu nublado. Um gemido de chuva. Sem estrelas. Um vestígio
de nada que se reflete na falta de tudo. O peso de dois lábios secos. Um fechar de olhos. Sem esperança. O cumprimento momentâneo do adeus eterno. A chuva cai.
Um sussurro perdido. Sem nada mais do que arrependimentos. Adeus.

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