O Fim

03:39:00

Agradeço o fim que me trouxeste. Não vinha numa bandeja, nem numa caixa com um laço a enfeitar. Foi abrupto, triste e, como um caixão, avisava a morte da alma. A missa fúnebre demorou a passar. Ajoelhei-me e rezei ao Salvador que não salva ninguém para perceber que tinha sido simultaneamente coveira e enterrada.
Falaram-me de "luto aliviado" e agora pergunto: isso existe? Cem lágrimas chorei, em mais cem me deitei. A minha voz encantou-se com o canto plangente. Aos sete ventos ofereci os meus gritos de angústia. Pergunto-me, se esses ventos percorrem o mundo, como ninguém ouviu o meu brado ansioso de socorro?
O vagido nasce para abrir a torrente de lágrimas. E tu, de rosto macilento nesse ranger de dentes, ignoras o pranto sentido e os olhos rociados de lágrimas. São olhos pisados, que dão dó, pena e pedem a piedade que sempre te negaste a oferecer. Brotavas no profundo do meu ser, para me perpetuares á saudade da qual tu devias ser o condenado. 
Trajaste-te de humor negro para me gozares e ás vestes nefandas com que me vestiste.
Tentei gritar a plenos pulmões, mas isso exigia a respiração e vida que eu já não possuía. Mais morta que um morto, aí me encontrava eu...
Tentei chorar a miséria, mas não havia como chorar por mim. Dei-te parte de mim, ou eu toda. Assim, tentei tirar-me de ti, mas parte perdeu-se por aí. A minha mãe perguntava-me onde estava e eu só lhe sabia responder que me levaste todas as vontades e que me arrastaste contigo.
O único ombro que existia para chorar era o motivo do meu lamento. Os únicos quatro cantos para que podia gritar estavam no teu quarto sempre escuro. 
Peguei nas tuas palavras e disparei. Gosto de pensar em igualdade: partiste-me o coração, parti o teu, ou não o vês a chorar? Dizes que fui feita para te afogar as mágoas, mas não porquê afogar-te no licor que te corre pelo corpo? Diz-me, tens um aperto no coração? Porque tens literalmente uma cara de enterro.



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Márcia Filipa. Com tecnologia do Blogger.