Ela II
16:50:00
Ela, que tanto odiava
bancos, contas e o comando do dinheiro sobre o mundo, encontrava-se ali. Sentada,
a olhar e a contar pelos dedos os segundos em que não podia controlar a tua
respiração. Resmungando com a indignação de quem só te quer nos seus dedos.
Ela, que tanto odiava o
desespero do tempo a correr-lhe pelos pulsos, encontrava-se ali. Contigo a
correr-lhe pela pele, para chegares à meta que nunca chegará a ti, para
cumprires o prazo que nunca delinearam, porque se o tempo é invenção do Homem, podem
eles mandar?
Ela, que tanto desprezava
a retórica e os discursos por coisa nenhuma, ali estava. A ouvir-te falar,
esperando o momento certo para te mostrar que há maneiras mais belas de discursar
pela boca e que uma delas beija como quem diz: sou mais tua do que tudo o que
já foi teu.
Ela, amante dos licores
que elevam o espírito e baixam o rosto, encontrava-se ali. A amar-te como se
fosses o primeiro gole da cerveja que carregavas na mão e que lhe ia levantar a
cabeça e dançar com ela, enquanto a sanidade se fazia embriagada.
Ela, que nunca caminhava
pelo chão descalça (ou pelas nuvens), ali estava. Passo a passo, lapso a lapso,
pés descalços foram criados para fazer sua a casa em que entraram. E assim,
pisava ela o chão para te fazer sobrevoar os céus sobre os quais te
limitaste a ajoelhar.
Ela, que renegava os
muros que a realidade lhe impunha, encontrava-se ali. Batendo nas teclas, esmurrando
a parede, tudo em vão, para tu chegares a ela e lhe mostrares como a realidade
pode ser bela só por ser real. Concreta. Ora não vê ela o teu corpo?
Ela, que vivia ao som de
toques que lhe eram negados, ali estava. Ouvia-te e permitia que lhe
tocasses ao ritmo descompassado de quem acreditava que a música da vida era
coerente, que era dona de uma voz e de um batimento cardíaco.
Ela, que sempre se perdeu
em histórias escritas pelos outros, encontrava-se ali. Caneta na mão esquerda,
caderno na perna direita e os segredos a deslizarem para as folhas que enchia
de perdição, enquanto esvaziava a pureza do líquido preto com que se abria.
Ela, que nunca abriu os
olhos para olhar, abre-os para ver a vida que desabrocha na sua mão, como a
arte brota da mão de Picasso. Finalmente, não prefere sonhar. Ela abre os olhos
para te ver e estica a mão para te tocar e sabe que já não precisa de sonhar, porque
o sonho reside em ti e tu resides nela.

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