Viver a vida contigo
13:47:00
Como eu gostava daquela casa. E de ti. Como eu gostava de
dançar contigo no meio da cozinha ao som de uma música lamechas, enquanto
preparavas o jantar. Como eu gostava da nossa capacidade inútil de só conseguir
escolher um filme ou uma série após já termos acabado de comer. Oh, como eu
gostava de fazer amor contigo ao acordar e à tarde e antes de ir dormir.
Adormecer abraçada a ti, sempre em conchinha. Não me interessava se estava
calor e não aguentávamos estar colados um ao outro, eu tinha de adormecer no teu
abraço. Ressuscitar umas almofadas antes também, porque sou uma esquisita com
almofadas e nunca memorizava qual era a minha. Como eu tenho saudades daquele
quarto tão frio no inverno e demasiado quente no verão. Acordava-me, virava-me,
olhava-te, um beijo, “bom dia amor”. E vivíamos a nossa vida. Quando não te
apetecia cozinhar e não me deixavas pegar nos tachos com medo que eu queimasse
a comida, pedíamos pizza. Especialmente naquele dia de promoção de 50%. Aí a
vida era bela. Cheia de queijo, fiambre e azeitonas. Ai, como éramos
simplórios. E felizes.
Eu limpava o quarto quando começavas a espirrar e a
resmungar porque não percebias porque é que tinhas alergias. Talvez o pó o
explicasse, meu grande idiota. Como eu te amava. E amo. Mesmo quando embirravas
comigo, argumentando que eu não sabia fazer a cama. Eu sabia, simplesmente não
via o jeito de a deixar perfeitinha, quando tu te ias deitar logo em cima dela
e eu em cima de ti. Também me lembro de a termos partido, mas ainda argumento
que não era culpa nossa, afinal o amor é forte.
Até daquela casa-de-banho horrenda tenho saudades. Poder
tomar banho contigo e resmungar contigo por tomares demasiados banhos sem mim.
Amava aquele gel de duche de mel e leite, por vezes, o de coco também.
Percorrias-mo do pescoço à ponta dos pés e eu beijava-te. E ria-me quando
chegava a minha vez, porque nunca punha gel de banho que chegasse para te
percorrer todo. Ali estavas tu, sempre imponente e mágico e irresistível à
minha frente, enchendo-me a vista. Ocupavas todo o espaço. Exceto quando eu me
punha ao teu lado e nos observava naquele espelho minúsculo a lavar os dentes.
Dois tontos com a boca cheia de espuma, a sorrir e de olhares apaixonados,
ambos vestidos com a tua roupa. Qual fosse a estação, havia sempre uma peça de
roupa tua que me servia perfeitamente. As tuas camisolas serviam de vestidos e
as sweats tapavam-me quase toda. Simplesmente perfeito.
Como amava sair de casa e ir ao supermercado contigo. É para
estas pequenas coisas que uma pessoa vive. Para decidir quantos doces devemos
levar e para resmungar quando escolhes os cereais errados. Sair e voltar a
subir aquelas escadas infernais, agora com sacos cheios de comida na mão. Sim,
é para estas pequenas merdas que uma pessoa vive. Para, quando tens de ir embora,
me empoleirar no corrimão e ver-te a descer todas as escadas até fechares a
porta da rua, embora tenha passado à volta de meia hora a despedir-me de ti. Ou
para andar a disturbar os vizinhos porque não tenho utensílios suficientes para
te fazer aquele doce que tu tanto gostas.
É por estas coisas que uma pessoa vive. É por ti que eu
vivo. E viver contigo é a maior alegria – e a melhor dor de cabeça - que uma
pessoa pode ter. Como eu gostava daquela casa. Do chão torto e da luz que
passava pelas pequenas janelas de vidro em cima das portas que algum doido
decidira inventar para me acordar assim que o sol nascesse. Eu odiava. Mas não
o trocava por nada. Porque ter-te deitado do meu peito a dormir era um sonho e
embrulhares-me em cobertores e abraçares-me quando estava triste era outro. O
teu riso fazia aquela casa. Ecoava perfeitamente por todas as divisões. Como eu
te amava. E ainda amo. Como eu te amo. Só gostava de poder viver a vida a viver
contigo. Vamos viver a vida juntos? Só tu e eu.

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