Instantes

18:38:00

            O silêncio é interrompido pela noite abrupta que chegou. Na verdade, já chegou há umas horas. Perdi o deitar do Sol para o despertar da Lua. Eu própria me encontrava deitada. Na cama. A olhar para o teto como olharia para as estrelas. Pensava que não queria pensar. Penso e penso e só penso porque é que a minha casa não é um lar. Não há resposta. Há ausência. Há a falta. A falta do toque. Do teu toque. Chegas a casa, sorris e a casa torna-se num lar. Desvaneces e tudo fica escuro… Ou eu fico cega. E tu voltas. E eu imploro-te que me toques, que deslizes os teus dedos pela minha pele fina. Frágil. Como toda eu sou… Não te peço que me toques por desejo, não desejo que me desejes por desejo, desejo-te porque preenches o vazio da alma que alguém me tirou. Então peço que me toques. Uma e outra vez. Porque um toque é temporário, dura apenas um instante. E eu preciso de vários instantes para fazer uma eternidade. Não fui feita para ambicionar a mortalidade. É o traço comum que todo o Homem carrega e, sejamos sinceros, ninguém gosta do banal. Mas tu não me tocas. E eu só te peço um instante. Na verdade, peço-te um sempre. Sempre que posso peço-te um sempre. Mas agora só te peço um átimo, porque é melhor um instante do que uma ausência. E tu recusas dar-me um instante para caíres no teu sono momentâneo. E eu continuo aqui. Deitada. A olhar para o teto como senão passasse de um buraco negro. O sono não toma conta de mim, não me pega na mão e me leva para outro mundo. Nem esse me toca. E ouço o relógio. E sinto-me presa no tempo. Nada em mim faz sentido. Conto o tempo pelas vezes que me fazes fraquejar e me estimulas a pulsação. Eu encontro-me fraca e tu encontras-te noutro mundo. Porque não me levas contigo? Podemos cometer instantes em todos os cantos do mundo, contar momentos pelas vezes em que deixámos de respirar. A maior prova de vida do ser humano é ser capaz de deixar de respirar. Então leva-me contigo. Porque eu prometi uma eternidade de instantes ao teu lado. Só que tu ainda não o sabes. Aqui te peço agora: vamos viver por instantes?

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Márcia Filipa. Com tecnologia do Blogger.