Não sabes quantas vezes já imaginei o teu regresso. A quantidade de cenários, o infinito de incertezas. Sabes como eu gosto de planear as coisas. E, aqui, foge tudo ao meu controlo. Não posso agarrar a vida, não me posso deixar abraçar pela morte. Permaneço imóvel, sonhando, recordando, mãos ao longo do corpo, inertes como as de um defunto, rosto ardente em lágrimas, revivendo o passado, recordando o futuro, nunca vivendo o presente.
No início, não era preciso imaginar. O futuro era uma certeza. Esperaria por ti no aeroporto, perscrutando todos os aviões, perguntando-me se verias o meu corpo pequenino no meio daquele mar de azul. Faria um cartaz e aguardaria ansiosamente ao lado das pessoas que te amam. Até levaria os óculos que nunca uso para ter a certeza de que seria a primeira pessoa a ver-te. Levaria uma roupa bonita, maquilhagem simples, encharcada naquele perfume que tanto gostas e do qual já não recordas o cheiro. E tu aparecerias, e eu prenderia os pés ao chão para me impedir de avançar para ti antes de todos os outros, para que o meu primeiro beijo fosse o teu último. Ver-te-ia a abraçá-los, a limpar-lhes as lágrimas, e depois aqui estaria eu, de braços abertos para receber a minha casa em casa. Seria um beijo profundo e breve. Seria um beijo interrompido, que continuaria quando estivéssemos sozinhos e pudéssemos beijar todas as saudades de nós.
Mas este cenário tornou-se impossível assim que decidiste que eu não valia a pena a espera. E, eu, num estado de esperança enlouquecida, contava os meses e preparava mentalmente o cartaz que, agora não diria «Bem-vindo a casa!», mas «Bem-vindo da tua não-namorada». Porque era isso o que eu era, embora não o sentisse. Como podia uma palavra tão pequena, «não», anular algo tão grande como nós? E, então, esperaria do lado de fora da janela do teu quarto e ligar-te-ia. Ouviria as desculpas que darias para não me veres, sabendo que estava a um vidro de distância. Então, diria «estou aqui fora», e não terias outra opção senão estar ali também. Apresentar-me-ia com esse cartaz, um sorriso perdido, e as cartas que te escrevi todos os dias. Podias não as ler, mas terias de segurar o papel onde o sangue do coração que desfizeste se tornou em tinta e, talvez, um dia, compreendesses o peso da minha dor.
Mas este cenário também se tornou impossível. A distância virou distanciamento e eu já não era a tua não-namorada, era o teu passado. Eu, que a única coisa que quis foi ser o teu futuro, agora reduzida ao pretérito imperfeito, a um objeto obsoleto, a uma lembrança apodrecida. E, aí, o cenário era outro. Um inverno que agride a alma, a solidão, a cama eternamente vazia. As paredes como o meu maior conforto. Brancas, desmaiadas, sem memórias que pudessem despertar em mim. As paredes como o meu maior consolo. E que vida é essa, quando as paredes são a parte mais feliz da tua vida? Não é vida, é apenas morte.
Mas não morri. Bem queria morrer, mas não morri. Não morri porque me obrigaste a esperar. «Quando eu voltar, vemos». E, assim, a minha vida ficou em pausa até voltares. Na verdade, já estava em pausa desde que te foste embora. Deves-me uma conversa. Na verdade, deves-me muito mais do que isso, mas, pelo menos, uma conversa. E, aí, os cenários replicam-se e eu já não sei qual deles é o mais errado.
Todos eles começam da mesma maneira: o abrir da porta da minha casa. Tu do lado de fora, atravessando-me com esses olhos afetuosos, um sorriso impercetível, o trespassar da minha alma. Nunca sei se te devolvo o sorriso, nunca sei se me desfaço em lágrimas. Nunca sei se te viro as costas e te lanço um seco «entra». Nunca sei se me atiro aos teus braços, na esperança de eles ainda aí estarem, abertos para mim. Nunca sei se te beijo esses lábios que já não meus são. Nunca sei se te atendo as chamadas sequer, se te permito que me envolvas numa tempestade de dor novamente. Nunca sei se me vais ligar sequer.
Qualquer que fosse o cenário, tentei imaginá-lo. Mas as dúvidas ao abrir aquela porta são tantas que nunca consigo imaginar sequer o que ocorre depois de te deixar entrar. Gritaremos um com o outro? Ficaremos em silêncio? Choraremos juntos? Reconfortar-nos-emos um ao outro? A verdade é que eu espero essa conversa. Espero-a intensamente, com avidez, amaldiçoando os dias por eles não passarem mais depressa. Mas, a verdade é que eu não tenho nada a dizer. Já te chorei as palavras, já as gritei, já as lancei ao fogo. Eu, pessoa de palavras, não tenho nem uma para te oferecer. Tenho silêncio e tenho dor, tenho muita dor, se a quiseres. Talvez tenha um pouco de amor, mas está difícil encontrá-lo, quanto mais dá-lo. Entregar-to. Outra vez. Todo o meu amor. Apenas para o ver reduzido a cinzas, esmagado entre as tuas mãos que tão bem me souberam amar. Mas já não sabem. E, talvez, nunca o voltarão a saber.
Qualquer que seja o cenário, eu não posso prevê-lo. Espera-me a espera, espera-me a passagem do tempo, espera-me o teu regresso. Mas, a verdade é que não quero o teu regresso, se não for para regressares para mim. Talvez esteja a ser imatura, insegura, ou até egoísta, mas não foi tudo isso que foste quando decidiste abandonar tudo por algo? Nem sei se chegaste a esse algo, ou se tudo o que recebeste foi um vazio que se perpetuará quando vires a casa sem passos suaves, a cama sem cabelos, a presença de alguém que está ausente.
Não condeno a tua preferência pela liberdade. Condeno a tua incapacidade de ver que a liberdade poderia ser vivida ao meu lado. Nunca te fui uma prisão, por muito que me queiras ver assim. Abri-te os abraços para te segurar, mas sempre abertos estiveram para quando me quisesses abandonar. E abandonaste, e foste. Mas oxalá pudesses ver que podíamos ter visto o mundo de mãos dadas.
Sei que me condenas o espírito caseiro, satisfeito, mas explica-me porque haveria eu de querer ir ver o mundo, quando ele estava todo perante mim? E, agora, o mundo foi ver o mundo e aqui estou eu, assente numa linha fina, num buraco negro, esperando que regresses e que, talvez, um dia, me venhas buscar.
- 09:16:00
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