Foste maré alta numa praia sem areia. Levaste-me com a corrente, sem a possibilidade de me afogar ou emergir. Mandaste-me por terra até criar raízes. Corri para o teu abraço quando a afinidade mórbida chegou. A falta de desinteresse não era sublime, mas mais que bela. Eras elegante quando desprendido, mas valoroso quando apaixonado. Fazias-me sentir perto o suficiente do céu para te ver por todo o horizonte que contemplava. Eras ouro sobre azul, de encher a vista ao mundo e digno de marcar uma época inteira.
Um reflexo teu era repercussão minha por dias a fio. A luz tremia na tua presença, tal relâmpago a acender uma centelha de resplendor. Andávamos a céu aberto em dias de rosas que nos deixavam a morar na saudade. Exigias-me necessidades, faltas e precisão. A tua compulsão causava a obrigação de reclamar a condição normal imprescindivelmente cruel do ser humano. Escolheste-me a dedo, cheio de frescura, anunciando “vou-te tocar como nunca foste tocada”. Pecaste à primeira ordem e eu tropecei à segunda. Esqueci-me dos meus deveres, desviei-me da virtude e verguei-me ao sopro pestilento do vício. Segui o caminho tortuoso e resvaladiço, rendi-me aos apetites e, com toda a certeza, meti a minha alma no inferno quando me perdi na tua figura. Se o amor envenena assim, então matai todos os pobres de espírito que desistem de alcançar as riquezas do corpo.
Que fique no papel que não sou mulher ordinária – estou aqui apenas para te desservir e perder-me no fracasso que é falhar-te. Faço frases como quem malha em ferro frio – em vão, sempre em vão. Talvez seja figura decorativa sem função, mas nunca me tomas como tal, quando em posição de ataque, me tomas de assalto. Uma investida ou uma injúria e sou tua – sempre tua. A paixão é vivida entre dois fogos onde um ataca e outro censura. Mas isto é o que digo eu na minha blasfémia mundana. Somos puritanos impiedosos que vivem do sacrilégio e ultraje às divindades. Mas irreligiosidade à parte, és o ser mais divino em que creio. És primevo que amo desde o fim do mundo ao meio da rua. Amo-te ao longe e bem de longe, tanto como te amo em mim. És o meio do mundo, aquele que pende alto na neblina da dúvida e hesitação.
Deixas-me a medo quando abandonas a cama no escuro. Deixas-me no ar com meias palavras e meios amo-te. És sentimento trespassado que me perfura de arrombo num passo desimpedido. Fico num estado oscitante de pele desabrigada e lábios rotos. Uma brecha entreaberta dá-te margem, dá-te a deixa, dá-me toda. Sou janela aberta onde queimas parte e ainda deixas fragmentos. Sais e toda eu sou uma lacuna em défice, pobre, magra, estritamente incompleta num vazio defeituoso. E tu, descontraído, algemas a lógica, amortalhas o bom senso e encadeias o raciocínio, enquanto eu, louca, sem pés nem cabeça, me limito a perguntar que vestimenta te agrada mais – a camisa de dormir ou o meu corpo fresco.
Sempre que me viro é para voltar para ti e emborcar a luxúria num só arrepio até me infundir os nervos e dar a volta ao mundo até me enlouquecer. Nunca fui de fazer versos à lua, mas aqui estou eu. Também nunca fui de assimetrias, mas a irregularidade da tua forma é tudo o que eu aspiro ter no meu corpo arcano. Aconteces no acordar da noite, no suceder do dia, quando passas o nascer da escuridão. És a sorte que encontrei e defrontei no gosto do céu da boca. Aquele que me faz sofrer na própria carne, sentir na pele o consórcio prometido e nunca cumprido. Ambreias a língua harmoniosa do nosso espírito, uma tuba poética que toca ao ritmo do canto bardo escrito em versos brancos. És oportunidade madura, tu próprio, promissor naipe de copas que distingue toda uma outra classe de qualidade. Uma coisa declaro com toda a certeza - é indiscutível a tua indisputabilidade. A mim me pertences e apenas meu és, clamo com confiança. Sempre foste um dogmatista com as favas contadas, mas nada é certo em última instância. Certezas só para os morféticos, os libertinos e os viciados. Nós? Nenhum deles. Talvez um pouco indecentes, mas não praticamos o mal, só ficamos bem um no outro. A mesquinhez humana é de uma tacanhice imbecil, daquelas faltas de inteligência tolas e ignorantes que nos fazem cometer asneiras como um adeus de mãos fechadas ou a privação do próprio adeus.
E são estas privações que me deixam aqui – a escrever um poema sem forma, uma rapsódia sem música, uma inspiração em branco. É impercetível para os comuns entender que a escrita é uma mutilação que impossibilita a cura, que jarreta e amputa o esquecimento, que é apenas um desamparo sufocante que nos tranca na própria tentativa de dizer chega. Quando era pequena, costumavam-me dizer que era tagarela, desacautelada e imprudente ao falar. Teimas que abandonei quando comecei a ser fluente na tua língua. Então agora fluo e sou quem te conhece os jeitos, a morfologia e a sintaxe em todos os tempos certos, na precisão da pronúncia e na justiça da ortografia. Como é irrefragável tal facto testemunhável, onde somos substancialmente verdadeiros, mesmo quando nus. E, é nessa realidade, que gosto de nos apelidar de fugitivos, porque batemos as asas e livramo-nos dos corpos suspensivos. Tudo é válido. Tudo é certo. Gostava de também poder dizer que é tudo decente e apropriado, mas não sou pessoa de falácias, embora, por vezes, sejam merecidas.
Quando te tenho em mim, contemplo-te de costas largas e na palma da minha mão. Faz tudo parte da volição ou, então, de uma síndrome incógnita. Talvez de uma telepatia impercetível ou apenas de um temperamento sonâmbulo. Verdade seja dita, eu não sei. Gosto apenas quando me cobres e me velas a pele. Toldas-me ao teu jeito sem me dares uma palavra e sem saíres do tom. És um ser dissonante, dizem eles. Permitem que discorde veemente. Apenas precisas de aparar as arestas, mas até lá tudo bem, porque eu estendo-te a mão para quebrar esse coração de pedra e servir-me desse corpo sólido, concreto e indestrutível. Sou mera voluntária a usufruir das tuas virtudes, aquelas que, sinteticamente, agendam a minha sentença. É intragável afogar as mágoas em embriaguez e intemperança numa taverna com umas e outras, vinho de honra, trocando as pernas com viajantes e pés de chumbo. É intragável todo o ato que não consista em venerar-te, respeitar-te, descobrir-te.
Alivias-me e confortas-me ao ouvido, num murmúrio de palavras consoladoras que vertem doçura no peito e moderam palpitações remidas dos seus sofrimentos. Permites-me desanuviar, respirar mais desafogadamente, desmortificar-me até. Amansas-me as rugas e alisas-me os vincos. Invertes todo o efeito do tempo em mim, como se desmanchasses a invenção do Homem num franzir de testa dulçoroso. Toda a tua alma é uma suave harmonia que me atinge o peito de maneira suspeita.
E assim escrevo – ao compasso da paixão que brotas em mim. Sem soutien, espartilho, pijama ou camisa de dormir, tendo em conta que os deitaste todos ao chão com o único propósito de te deitares em mim. “Que comportamento inadmissível!”, gostaria eu de ter protestado, enquanto te mandava para o meio da rua, mas se nem te consigo deixar fora de mim, quanto mais longe de casa. Então aqui estás tu, em todo o teu estado firme e espírito invencível. E eu escrevo-te em papel, como quem grava o indomável em ferro ardente, na esperança de não enlouquecer enquanto me desatinas e me turvas o juízo que escassa a cada minuto nosso em que perco a cabeça e tu te perdes todo… Somos uma junção irresolúvel e surpreendentemente miraculosa que insisto em revisitar e apelidar de oitava maravilha do mundo. Verdade seja dita, faço pouco de todas as outras a partir do momento em que te caí na pele e te tornaste o meu mundo inteiro.
- 13:13:00
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